terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Eu, o futebol e o mundo

Desde criança tenho uma fascinação pelo futebol. Não sei explicar como começou. Talvez tenha sido influência de meu irmão vascaíno, talvez tenha sido pelas imagens que via de teipes dos jogos do Brasil na Copa de 70 com aquela linda camisa amarela das primeiras cores que uma tevê pôde mostrar, camisa envergada em seu número 10 por um negro que todos tratavam como Deus, um negro chamado Pelé. Aquela imagem cativante, daquele homem que parecia tudo poder, talvez tenha sido meu primeiro canto de sereia para o futebol. Mas o que sedimentou a paixão em mim, foram outras cores distintas da amarela. De fato, elas eram vermelho e preto e também tinha em sua camisa 10 um semi-deus, um Hércules dos estádios. Era um rapaz franzino, branco, que no físico diferia de Pelé, mas que certamente comungara com ele da mesma capacidade de embelezar um jogo já belo, de encantar fãs e rivais. O engraçado é que mesmo com a adoração por Zico, meu ídolo no Flamengo do início dos anos 80 era outro jogador. Não sei se porque enquanto Zico parecia inatingível, uma verdadeira dividindade, este outro jogador era mais humano, ou se era pelo seu jeito cativante, o fato é que o "moleque" Adílio, camisa 8 às costas, me deu a primeira noção de idolatria. Era com ele que eu queria parecer, seu jeito de correr, sua alegria. Lembro que o número 8 foi minha primeira paixão para a escolha do time da rua ou do colégia. Eu era o 8, o 10 era Deus.

No início torcedor, fui batizado em glória e dor. Glória porque vivi meus primeiros anos de amante do futebol, vendo meu Flamengo conquistar tudo e todos. Uma unanimidade que passava à história, sem eu nem mesmo perceber. Lembro apenas que em minhas imberbes impressões o Flamengo era quase uma idéia. Não era um time de futebol, pois estes perdem, o Flamengo jamais era derrotado. A dor veio-me com minha primeira Copa do Mundo quando aquelas camisas amarelas fascinantes com jogadores tão fascinantes quanto, encantava o mundo. Éramos futuros campeões e nem sei porque nos davámos ao trabalho de ter que provar isso. Mas aí surgiu um italiano que imprimiu em minha alma o sinônimo da tristeza eterna, de modo que todas as minhas angústias passaram a atender pelo mesmo nome : Paolo Rossi. Um verdugo, um carrasco na mais sublime acepção que a palavra permite, uma idéia de dor. Paolo Rossi esquartejou um sonho e talvez tenha mudado a história do mundo. Uma idéia por demais exagerada para passar pelo crivo de uma análise histórica, mas que se encaixava como uma luva medida nas minhas percepções. Destruindo o sonho de um título para o espetáculo mais belo, Rossi mostrava que o sucesso não caminhava necessariamente junto com a beleza, que não se precisava esmerar nos versos para se construir um livro de poesias de sucesso. E isto tornou-se o chavão desde então. Não apenas para o futebol, mas para todas as atividades humanas. O sucesso é a vitória, que nem sempre vale três pontos. Ás vezes vale dinheiro, uma promoção, um prêmio qualquer. Mas acima de tudo, a beleza foi estirpada da alma humana como o qualificador do trabalho. Pragmatismo é o que nos ensinou o italiano. E para mim, que hoje vejo essa orfandade do belo em tudo, Paolo Rossi deixou de ser um jogador de futebol que atuou com uma camisa azul, jogou por alguns clubes e se aposentou. Não. Paolo Rossi é o codinome para essa enorme e estapafúrdia vicissitude do sucesso quantitativo.



Exageros , eu sei. Mas vejo o espectro do futebol em muitos aspectos da vida. Na verdade, acho que o mais justo seria dizer o contrário. Sim, pois o futebol é apenas uma representação de todos os instintos mais profundos da alma humana. Não é por isso exclusivo ou especial, de forma alguma, ele apenas espelha a mesma coisa que milhares de atividades também espelham. Se há algo de especial com o futebol é o fato de que ele, sem dúvida, está entre as atividades humanas que mais despertam paixões. Não se conhece uma peça, um filme, um concerto de música que possa congregar mais de cem mil pessoas para assisti-lo e que seja visto por milhares em todo o mundo e que não se esgota ao término de seus oficiais 90 minutos de duração, mas que se espraia por toda uma semana de discussão ou por uma eternidade, se a peleja findar em um desfecho épico, como por vezes pode acontecer. Essa característica é na verdade apenas a constatação de que o futebol, como outros esportes veio ao mundo como um agente substitutivo das batalhas ou guerras. É uma versão mais pacífica do instinto humano da disputa e por isso suas consequências podem perdurar pela eternidade, como as batalhas geram narrativas que passam à história como um Pelopóneso. Talvez seja por isso que o futebol também guarde, como um caule de árvore o registro das épocas humanas que ele assistiu, desde o ínicio em meio a uma Segunda Revolução Industrial, passando pelo alvorecer de um séulo transformador, assistindo duas Guerras Mundias, a ascenção da tecnologia nas vidas humanas e o decaimento em um sistema globalizado e puramente mercantilista. Basta olhar, dentro do futebol essa história humana também está contada e se algum dia o planeta for destruído e apenas a história desse esporte sobreviver, um analista atento poderia recriar o cenário desse período que compreende mais de um século e meio da nossa jornada.

Enfim, todo esse enorme prelúdio é apenas para justificar que usarei este espaço como forma de discutir a história do futebol, em palavras e em imagens. Nesse blog, procurarei, na medida do possível, resgatar um pouco a memória do futebol que está ao meu alcance dividindo textos e jogos na íntegra, ou documentários que ajudem a elucidar a empatia profunda que este esporte maravilhoso desperta na maior parte da população de nosso planeta.

4 comentários:

  1. Olá Gaius,

    Foi por acaso que encontrei seu blog na net, mas não vai ser por acaso que vou deixar de segui-lo. Lendo este prólogo, fiquei impressionado com a poesia com que escreve sua paixão pelo futebol. Isto porque me reconheci nas linhas do seu texto em inúmeras passagens. Continue o belo trabalho, pelo bem do futebol, e de fãs dele como eu (e você).

    Um grande abraço,

    Bira.

    P.S.1: Já baixei o jogo Brasil x Alemanha e pretendo baixar os da Holanda e todos os outros que porventura você disponibilizar (confio de antemão no seu bom gosto).

    P.S.2: Eu participo num forum internacional e acho que você também iria se interessar. Há discussões interessantes lá. Se tiver interesse, visite:

    http://www.bigsoccer.com/forum/forumdisplay.php?f=24

    Até a próxima!

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  2. Finalmente um meio sistemático de suas ideias sobre o futebol para eu poder lê-las. Concordo com o aventureiro Bira, uma ótima prosa para descrever o maior esporte do mundo, que é o futebol. No meio do cotidiano, onde acabamos por valorizar a academia por demais esquecendo as habilidades nos esportes, perdemos de se atentar à isto, que o futebol é mais uma forma de expressão da nossa humanidade. Em várias de nossas discussões aprendi a diferenciar mais o quente do frio ou do alegre e do sério, nas chuteiras, e lendo os próximos textos pretendo continuar a aprendê-las. Bom blog!

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  3. Este comentário foi removido pelo autor.

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  4. Meu Deus e eu que nem isso vi. Não vi 70, 82, 86 de perto, vejo os VTs hoje mas não presenciei, não vivi isso. Fico deprimido com a situação atual do futebol brasileiro. Ontem mesmo fui ver meu time no estádio, ele ganhou mas eu não saí de lá feliz nem satisfeito. O ingresso não valeu. AH, VOLTA FUTEBOL ROMÂNTICO!

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