terça-feira, 19 de maio de 2009

Pra não dizer que não falei das flores...

Na década de 50, Nélson Rodrigues dizia que o brasileiro tinha o complexo de "vira-latas". Que olhávamos o mundo como marginalizados e nos víamos sempre na posição mais incômoda quando nos confrontávamos com o exterior. Talvez ele estivesse certo sob muitos aspectos da cultura brasileira. De fato, nossa história imberbe nos faz olhar para a Europa nos sentindo um irmão muito mais novo que não conhece e não tem um décimo da experiência desse já crescido confadre e também é mais pobre que o irmão mais próximo da América do Norte. Nos tempos de Nélson ainda tínhamos mesmo um sentimento provinciano até em relação a nossos vizinhos mais próximos como Argentina e Uruguai. Por outro lado, o próprio Nélson vaticinava em 1958 que, vencida a Copa do Mundo naquele ano, davámos um passo para matar esse complexo, para nos curamos de nossos fantasmas e mirarmos qualquer um, velhos e novos, pelo menos ao mesmo nível. Contudo, apesar dessa imagem servir perfeitamente bem aos floreios dramáticos que a prosa "rodrigueana" fazia uso para construir suas brilhantes crônicas, eu vejo uma nuance que discorda da visão de Nélson, ao menos em relação ao futebol.

Desde a Copa de 38, o Brasil tinha ganho uma auto-estima que tendia mesmo ao exagero. Perdíamos em 38 nas semifinais, quando nunca passáramos da fase inicial nas duas edições anteriores do campeonato mundial, perdíamos dos atuais campeões do mundo, os italianos, mas várias estórias foram elucubradas para explicar o nosso "insucesso". Era o árbitro que conspirava contra uma derrota dos italianos, talvez impelido pela influência política de Benito Mussolini, era mesmo a arrogância de nosso treinador que poupava Leônidas da Silva (o nosso craque de plantão) já pensando na final ou até mesmo nosso grande zagueiro Domingos da Guia que "tremia" contra o fatídico adversário. Não podíamos perder apenas porque perdíamos contra uma equipe mais experiente e que já era campeã do mundo, que tinha um campeonato nacional profissional desde 1929, ao passo que nós só o teríamos em 1971 e que, ao final de tudo possuía jogadores respeitados no continente europeu e um técnico que foi um dos maiores impulsionadores do esporte, Vitorio Pozzo.

Em 1950, tivemos nosso maior drama no cenário futebolístico. Uma geração brasileira mais experiente e melhorada com jogadores que marcaram sua época, como Zizinho, Barbosa, Ademir de Menezes e Danilo, perdia, em pleno e récem inaugurado Maracanã, a Copa do Mundo para os uruguaios. Novamente tivemos um milhão de teorias para explicar nossa desgraça. A imensa maioria dela apontava culpas internas, pouquíssimas se referiam à capacidade da Celeste. As poucas que ainda faziam, em sua maioria, canonizavam um homem chamado Obdúlio Varela que, fazendo uma das exibições individuais mais impressionantes de que se tem notícia, derrubou o espírito dos brasileiros. Essa atuação, contudo, não era feita à base de dribles e lançamentos ou gols. Não. Obdúlio incorporara a alma do "caudilho". Distribuía broncas, entrava com força nas divididas, ganhando-as todas, "espumava" pela boca. E, com isso, punha em estado de choque os adversários de camisa branca (sim, o Brasil usava branco até aquela Copa, quando o trauma nos fez procurar outras cores). Quase nenhuma das explicações não mencionava que enfrentávamos um adversário que tinha ampla vantagem contra nossa seleção no histórico de confrontos e que, apenas um ano antes, nos derrotara mais de uma vez, incluindo um insucesso em território brasileiro. Perdíamos de novo para nós mesmos. Nunca para um adversário. Era o indefectível "complexo de vira-latas" o verdadeiro culpado.


Pois bem, em 1978, não antevendo o que aconteceria quatro anos mais tarde, a imprensa nacional durante a cobertura da Copa da Argentina decantou a seleção italiana como uma promissora equipe que colocava de lado vários aspectos que impregnavam o tradicional estilo defensivo dos mediterrâneos para trazer uma brisa de ousadia aos representantes do catenaccio. A Itália, diziam as matérias, mantinha sua capacidade de se defender através do notável desempenho de jogadores como Dino Zoff, um dos melhores de sua geração, Cabrini, Scirea e Tardelli. Além disso a novidade era a inspiradora presença de jogadores como o veterano Bettega, o cerebral Causio e uma promessa jovem. Um artilheiro que tinha técnica e capacidade de finalização para colocar em xeque as defesas com que se confrontava. O nome dessa jóia era...Paolo Rossi. Assim, com uma equipe se formando, após a aposentadoria da geração do final dos anos 60, a Itália alcançava um honroso quarto lugar, depois de ser batida pelo Brasil na decisão de terceiro, o que nos valeu o "título de "campeões morais" daquela Copa, como definiu o técnico Cláudio Coutinho. Em 1980, vítima do escândalo de resultados arranjados para a Loteria, a Itália terminou também em quarto na Eurocopa, sem a presença de Paolo Rossi, punido pela participação no delito. Rossi ficaria suspenso até a Copa da Espanha, quando após não marcar nenhum gol na primeira fase, foi nosso verdugo e terminou como artilheiro da Copa, com seis gols.


Nossa fantástica equipe de 82 também foi dilacerada por todas as teorias que explicassem a derrota para os italianos que nos alijou de um título dado como certo. Entretanto, meu argumento construído a partir dos outros exemplos é que não podemos simplesmente esquecer que existe um adversário e que ele como nós buscamos a vitória. Então ganhar e perder não são decisões que cabem unilateralmente no futebol. Essa é a questão chave em qualquer atividade humana, efeitos que envolvem mais de uma pessoa dependem fortemente da interação que se dá entre elas. O futebol, particularmente tem entre os esportes um dos maiores índices de imprevisibilidade possível para o resultado final. E o sistema em que se disputa competições como uma Copa do Mundo maximizam essa possibilidade de eventos pouco prováveis tornarem-se realidades. Os italianos não eram geniais como os brasileiros naquela Copa, mas também não eram extraterrestres no jogo, incapazes de compreender o que era necessário se fazer para ganhar. Tinham jogadores de bom nível e um treinador que soubre extrair o necessário do time para que ele se sobressaíse na hora final. A Itália, no caminho para ser campeã, derrotou simplesmente as equipes que possuíam o melhor retrospecto internacional da época: Argentina, Brasil, Polônia e Alemanha. O jogo Itália e Brasil é um dos melhores da história dos mundiais, não apenas pelas cores de dramaticidade que ele carrega, mas também pela exibição de ambos os times. O Brasil era melhor durante a Copa, mas a Copa não é um campeonato de pontos corridos. Basta um jogo. E em um jogo, muitos aspectos estão envolvidos inclusive a qualidade do adversário e como esse adversário sabe tirar proveito das qualidades e defeitos do rival. Uma frase muito repetida pelos italianos depois daquela partida é a de que eles sabiam que perderiam em 99 de 100 partidas que jogassem, mas em uma Copa, basta ganhar uma. Essa eles ganharam. A Copa teve seu campeão, mas nem por isso o que o time brasileiro fez durante os dois anos em que foi construido desmoronou após aquela tarde no Sarriá.

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