sexta-feira, 14 de agosto de 2009

A tragédia de uma nação

Os anos 50 começavam para o Brasil sob o signo da esperança. Em meio a um mundo que se reconstruía depois da II Grande Guerra, o Brasil se enxergava como um país pujante pronto a tomar seu lugar entre as grandes nações do planeta. O expansionismo econômico tomava lugar em terras tupiniquins sob a égide do milagre econômico. Investimentos, a maior parte deles vindos da esfera estadunidense, ajudavam a construir as indústrias brasileiras. As cidades aumentavam e começavam a conhecer os confortos da vida moderna que europeus e norte-americanos já desfrutavam. Assim, nossos passos para o primeiro mundo pareciam cada dia mais céleres.

Logo, sediar um evento de envergadura intercontinental, como a Copa do Mundo, era uma tarefa que nos poria definitivamente no cenário. Para lograr tal desafio fazia-se necessário que construíssemos um estádio de futebol que não tivesse paralelo com nenhum outro já construído. Então, o país erigiu o Maracanã, o maior templo já feito para o esporte. Mesmo ainda em obras, ele foi aberto para a realização do IV Campeonato Mundial, com a capacidade de abrigar 200.000 pessoas. Os sonhos de grandeza do Brasil voavam alto. Assim, em meio a toda a euforia desses tempos, a coroação dessa empresa só podia ser uma: o título mundial. A conquista que nos garantiria lugar entre os maiores, que seria a cereja sobre a torta, que nos faria reinar incontestáveis como os melhores do mundo.

Entretanto o entusiasmo brasileiro não estava fundado em elementos tão sólidos quanto imaginava-se. Como uma criança que pensa ser adulto antes da hora e, que por isso se desilusiona, com a primeira queda, os brasileiros tiveram no dia 16 de julho de 1950, um tombo que forjou toda uma idéia sobre o país. Apostar tantas fichas de sua prórpria auto-estima num campeonato de futebol nos levou ao cataclisma da nossa fé como povo.

Era natural que nos sentissemos confiantes quanto à equipe. Enfim, o Brasil tinha feito ótima campanha na Copa de 1938. Desde lá, uma geração de grandes jogadores surgira no país. Jogadores como Danilo, Jair, Zizinho e Ademir que estão até hoje entre os maiores nomes a vestirem a camisa da seleção. Havíamos vencido o ensaio da Copa, conquistando a Copa América disputada em território nacional um ano antes. Entretanto, um agouro nos passou despercebido como aviso para nossas debilidades. Desde 1948, enfrentáramos 5 vezes os celestes, vencendo 3 e perdendo 2 vezes, sendo que uma das derrotas acontecera no mesmo 1950. Assim, não era tão evidente que pudéssemos ganhar facilmente de nossos vizinhos. Evidentemente os uruguaios não possuíam mais a velha classe que lhes dera duas Olímpiadas e uma Copa do Mundo, mas ainda eram uma equipe forte e que tinha a experiência de vitórias que nos faltava. Mesmo assim, as impressionantes goleadas frente à Suécia e Espanha deram a todos os brasileiros a irrestrita confiança na vitória.

Tamanha relação entre o andamento do Campeonato Mundial e a fé no país havia necessariamente de aproximar os políticos do escrete brasileiro. Some-se a isso o fato de que 1950 era um ano de eleições e então, a bomba estava pronta. Alvos dos interesses eleitoreiros, os jogadores se transformaram nos heróis mitológicos que poderiam alavancar qualquer imagem, vender qualquer produto. Éramos campeões e pronto. Palavras do prefeito do Rio de Janeiro, o senhor Ângelo Mendes de Morais, em discurso feito antes da partida no Maracanã:

“Vós brasileiros, a quem eu considero os vencedores do campeonato mundial; vós brasileiros que a menos de poucas horas sereis aclamados campeões por milhares de compatriotas; vós que não possuis rivais em todo o hemisfério; vós que superais qualquer outro competidor; vós que eu já saúdo como vencedores!”

Conta-se várias estórias de como a concentração de São Januário, onde a equipe se concentrou nos dias anteriores ao jogo contra os uruguaios, ficou tomada de políticos que queria, a qualquer custo, ligarem sua imagem aos "virtuais campeões do mundo".




Certamente todos esses fatores extra-campo contribuíram. Mas também contribuiu para a derrota brasileira a força de seu adversário. Os uruguaios não eram inofensivos. E postos de lado na festa final, eles tiveram toda a tranquilidade para pensar apenas em como vencer o Brasil, ao passo que o Brasil pensava apenas em como comemorar a já decantada vitória contra os uruguaios.

Esse jogo marca a vitória e a derrota perfeitas. O drama mais contundente da história do futebol. Quando um país embriagado pela sua própria idéia equivocada da construção da grandeza, caiu para um adversário que estava ali apenas para disputar uma partida de futebol. A chamada "Garra Charrua" , como os uruguaios cognominam sua disposição féerica para a superação das dificuldades, foi o bastante para a Celeste vencer a Copa do Mundo pela segunda vez. Ao Brasil, restou um drama inesquecível. Uma história que pese o tempo que passou. Que pese o fato de que desde lá conquistamos 5 Copas, contra nenhuma de nossos carrascos. Que pese os destinos completamente diferente que ambos os países tomaram no que tange à vida esportiva e econômica, continuará a existir como uma ferida mal cicatrizada.

Nélson Rodrigues chamou aquela derrota de "nossa Hiroshima" para, num exagero tipicamente rodrigueano, exaltar a dor que acometeu a todos naquele episódio. Carlos Heitor Cony, disse:

“Deixei de acreditar em Deus no dia em que vi o Brasil perder a Copa do Mundo no Maracanã. Duzentas mil pessoas viram quando Ghiggia fez o segundo gol do Uruguai. Foi um lance claríssimo, sem qualquer confusão que pudesse suscitar dúvidas: havia apenas Ghiggia, Bigode, Juvenal e Barbosa. Pois bem: depois do jogo, não encontrei uma só pessoa que descrevesse aquele lance da mesma maneira. Então, como acreditar na versão de meia dúzia de apóstolos, os poucos que viram Cristo ressuscitar, meio na penumbra, num local ermo e obscuro?”

Depois da Copa de 1950, o Brasil iniciou uma caça às bruxas para apontar os culpados pela falência de nosso sonho. O mais lembrado e célebre entre as vítimas, foi o goleiro Barbosa. Sujeito de humor admirável, a despeito de tudo pelo que passou, Barbosa costumava dizer que, apesar da pena máxima prevista pelo Código Penal Brasileiro, ser de 30 anos, ele cumpria a dele há quase 50. De fato, Barbosa sofreu humilhações absurdas como ter sido impedido de entrar na concentração da equipe que treinava para a Copa do Mundo de 1994, pois podia carregar um vento de "azar". Assim como ele, que não mais voltou a jogar pela equipe nacional, depois daquele 16 de julho, os "estudiosos" da época encontraram numa suposta "fraqueza de cárater" dos negros da Seleção a culpa pela perda. Com isso, muito se mudou para as Copas seguintes. Isso chegou a pesar tanto que em 1958, o Brasil iniciou a competição que resultaria no primeiro título mundial, preferindo uma equipe de tonalidade mais branca que escura. Pelé, Garrincha, Zito e Djalma Santos eram reservas de jogadores brancos, alguns deles de origem italiana, como Dino Sani, Mazzola e De Sordi. Depois de Barbosa, o Brasil esperaria até a Copa de 2006 para ter de novo um goleiro negro disputando um campeonato mundial. São detalhes que parecem não fazerem mais sentido nos dias de hoje, mas que tiveram origem naquele dia 16 de julho, quando o Brasil viu o sonho de ser grande se evanescer em 90 minutos. Quando, no dia seguinte, vários repetiam pelos cantos do país:"Nada nunca dará certo nessa terra!"

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