segunda-feira, 29 de junho de 2009

Doce rotina de vencer


Campeão continental, estadual e mundial nos últimos dias de dezembro, o Flamengo iniciou o novo ano como terminara o anterior. A escalação era sabida de cor e salteado, assim como os jogadores sabiam de cor e salteado onde cada um se encontrava dentro de campo. Além do entrosamento e do equilíbrio que o time alcançara, aquele primeiro semestre de 82 era muito inspirador para a equipe, pois com a aproximação da convocação para a Copa da Espanha vários jogadores se motivavam por razões distintas. Zico, Leandro e Júnior mantinham-se em forma para realizar uma grande competição, uma vez que eram presenças garantidas no time de Telê. Por sua vez, Tita, Raul, Andrade e Adílio tinham esperança de serem convocados. Tita, por exemplo, participara como titular em vários dos jogos pelas eliminatórias em 81.

Todo esse cenário contribuiu para uma campanha fantástica no Campeonato Brasileiro. Foram 23 jogos, com 15 vitórias, 6 empates e apenas duas derrotas. A equipe marcou 48 gols e Zico foi o artilheiro da competição com 21 tentos. Algumas partidas foram marcantes. Partidas que eram recheadas de grandes jogadores, algo tão longínquos nos dias de hoje, em que o Campeonato Brasileiro é um deserto de bons jogadores. Como se sentir ao ver um jogo em que o Flamengo de Zico, enfrentava o São Paulo com Oscar, Serginho, Renato ou o Atlético de Éder, Reinaldo ou Cerezo, ou ainda o Corinthians de Sócrates, Zenon e Wladmir. Para não falar no Internacional e no Guarani, que tinha o garoto Careca e que marcou 53 gols naquela competição. A grandeza dessas partidas pode ser medida por seus marcadores. Em especial, os jogos de Flamengo e São Paulo foram épicos. O primeiro, dia 20 de janeiro no Maracanã, marcava o retorno do Fla aos campos depois do título no Japão. Início nada promissor com um 2x0 para os paulistas, até que veio a reação que finalizou-se em 3x2. No Morumbi, 4x3 para o Flamengo!

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Mas os grandes confrontos vieram mesmo na final. O Flamengo defrontou o Grêmio. Se não era uma equipe de craques como o São Paulo ou o Atlético, nem com a impulsividade dos bugrinos do Guarani, o Grêmio, seguindo sua tradição, era sólido. Além de contar com jogadores de qualidade indiscutível e selecionáveis, como Paulo Isidoro e Batista e, obviamente, de ser o então atual campeão nacional. Era o confronto dos últimos dois vencedores do Campeonato Brasileiro.

Foram necessárias três partidas para se definir o vencedor. Nas duas primeiras, empates de 1x1 no Maracanã, com Zico igualando o marcador no final da partida e 0x0 no Olímpico. A terceira partida também no Olímpico foi tremenda. O Grêmio partiu para a pressão com a presença de um jovem jogador que um ano mais tarde seria responsável pela maior glória tricolor, Renato Gaúcho, então apenas Renato. Em sua impetuosidade de récem profissional, Renato deu muito trabalho a Júnior. Era a iconografia daquele confronto: a força contra gremista contra a categoria rubro-negra. E a experiência de decisões pesou ao final. Com um passe milimétrico de Zico para Nunes, que já fora herói do título contra os mineiros do Atlético, em 1980, que marcara contra o Vasco na final do carioca do ano anterior e duas vezes contra os Reds do Liverpool, o Flamengo marcou o gol que lhe deu o segundo campeonato nacional em três anos e o quarto num espaco de um ano. Por seu lado, o João Danado, como era conhecido Nunes, fazia jus ao título de "Artilheiro das Decisões".

domingo, 28 de junho de 2009

Annus Mirabilis

No início dos anos 80, a disputa do Campeonato Brasileiro era feita no primeiro semestre do ano, enquanto os Estaduais e a Libertadores se jogavam na parte final. Era uma época bastante diferente, em que para os principais clubes do país, a escolha entre ser campeão em seu estado ou nacional era mais difícil de se fazer do que hoje em dia. O Flamengo, havia perdido seu treinador e o idealizador daquela equipe, no final de 1980. Claudio Coutinho, após desentendimentos com a diretoria, saíra para trabalhar nos EUA e em seu lugar fora contratado Dino Sani, campeão do mundo pela seleção brasileira de 1958, como jogador. Dino teve diversos problemas de desentendimentos com integrantes da equipe e a desclassificação frente ao Botafogo nas quartas-de-final do Campeonato Brasileiro (0x0 e 1x3) minou seu destino. Ele ainda iniciou o Campeonato Carioca e a Taça Libertadores comandando a equipe, até que sua condição ficou insustentável e a diretoria optou por escolher como substituto o já ex-jogador Paulo César Carpegiani, o mesmo homem que havia sido contratado para ser a voz de Coutinho dentro de campo.

Com dificuldades iniciais, Carpeginani escolheu o caminho de unir o grupo através do seu conhecimento da personalidade de cada um e da co-gestão, aceitando ouvir as opiniões dos jogadores sobre os caminhos a serem escolhidos para recuperar os erros apresentados no Campeonato Brasileiro e em alguns jogos das competições estadual e continental. O problema mais imediato era corrigir o sistema de cobertura dos laterais. O Flamengo, desde o título brasileiro do ano anterior, mudara um pouco sua escalação. Mudanças, entretanto, muito importantes. Nesse período acontecera a ascenção dos jovens Leandro, lateral-direito e Mozer, zagueiro. A vaga de Carpegiani era ocupada por Adílio e Júlio César perdera a ponta-esquerda para Baroninho, que viera do Palmeiras. Apesar de ter conseguido se classificar na primeira fase da Libertadores, após dificéis e conturbados confrontos com o Atlético-MG, dos quais o mais famoso é o jogo desempate em Brasília que, com uma direção confusa de José R. Wright, chegou ao fim por impossibilidade numérica no time mineiro, o Flamengo tinha séria queda de rendimento em alguns jogos mais duros como esses embates contra o Atlético pela Libertadores e em alguns clássicos no estadual. A fonte principal dos problemas era justamente a fragilidade defensiva pelos lados. Tanto Júnior como Leandro, eram muito mais meias que atuavam pelos lados do campo do que laterais defensivos. Com a presença de Adílio, mais ofensivo que Carpegiani, e com Baroninho fazendo o papel de ponta clássico pela esquerda, o time ficava exposto aos contra-ataques. A solução foi retirar o ex-palmeirense que, a despeito de sua boa fase pessoal, foi preterido para a entrada do meia Lico. Lico tinha bom domínio de bola e sabia cadenciar o jogo. Com ele o time ganhava em coesão e evitava a perda de bola. Por outro lado, Lico também era um trabalhador e fazia de bom grado a cobertura de Junior pelo seu lado. O time encontrava um equilíbrio.

A estréia da nova formação não poderia ser mais espetacular. Foi no dia 11 de novembro contra o Botafogo. O que tornou o jogo especial foi que, além do desempenho arrasador que produziu um placar de 6x0, esse marcador exorcizava o fantasma criado em 1972 pelos alvinegros, que haviam goleado o Fla pelo mesmo escore, no dia do aniversário rubro-negro. Desde então, nenhum torcedor do Botafogo perdia a oportunidade de lembrar ao colega rubro-negro sobre esse feito. E, apesar, da superioridade vermelha e preta nos últimos anos, essa espinha continuava engasgada. Pois bem, aos 42 minutos (4+2=6) do segundo tempo, o camisa 6 do Fla, Andrade, marcou o sexto gol e fez o torcedor acreditar que o Flamengo tocava o céu. As coincidências, tão queridas aos botafoguenses, sorriam para os lados da Gávea.



E então aconteceu. O equilíbrio alcançado com as mudanças de Carpegiani, aliada à sua sábia e ponderada ascenção sobre a equipe, criou o elo que faltava para que o time decolasse. Zico, Júnior, Leandro, Andrade, Adílio, Tita e Lico podiam tocar a bola por horas, até que num rompante o time chegava ao gol adversário envolvendo as defesas com tabelas e dribles. Essa solidariedade e fluidez no jogo, proporcionada pela grande capacidade técnica dos jogadores, era a marca registrada daquele Flamengo. Entre os meias, atacantes e laterais, apenas Nunes e o próprio Lico não podiam ser considerados artistas da bola. Mas eram trabalhadores que não poupavam esforço em tentar acompanhar a genialidade dos outros.

Foi um final de ano inacreditável. Ganhador de dois dos três turnos no estadual, o Flamengo fez a finalíssima com o Vasco, em três partidas precisando apenas de uma vitória ou dois empates para ser campeão. Depois de uma primeira derrota, o time caiu novamente para o Vasco, num jogo marcado pela dor dos jogadores que um dia antes tinham passado a noite no velório de Claudio Coutinho. O ex-treinador e maior responsável pela confecção do time , e daquele período, morrera afogado praticando caça submarina no litoral carioca em suas férias. Todo o elenco estava psicologicamente abatido mas, na terceira partida, veio a vitória e o Flamengo sagrou-se campeão estadual.

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Porém, duas semanas antes, a equipe já havia somado seu maior feito e adquirido a , até então , maior conquista do clube. Também em uma série de épicas três partidas contra os chilenos do Cobreloa, o Fla ganhou, em Montevidéu, a Taça Libertadores da América. Depois de uma vitória em casa por 2x1 o time perdeu a segunda partida com um gol aos 39 minutos do segundo tempo. Foi um jogo típico do que eram os jogos da Libertadores nos anos 80. Pressão do time da casa sobre o árbitro que demonstrava condescendência absurda frente às agressões perpetradas pelos zagueiros e atacantes chilenos. Agressões que privaram o Flamengo da presença de Lico no terceiro jogo, substituído pela improvisação de Leandro ao meio-campo , entrando Nei Dias como lateral. Em terreno neutro, o Flamengo impôs sua maior categoria e venceu por 2x0. Era a porta aberta para adquirir a ambicionada Taça Intercontinental, título que o futebol nacional não conhecia desde os idos do Santos de Pelé. Então cabia à equipe que parecia ter herdado à coroa da supremacia no futebol do Brasil, trazer de volta essa glória.



No final do mês de dezembro, o Flamengo enfrentou o poderoso Liverpool em Tóquio. O Liverpool, que sagrara-se em 1981, campeão europeu pela terceira vez em sua hsitória, num espaço de 5 anos. Era o grande clube inglês numa época de predomínio do futebol inglês, único vencedor do torneio continental na Europa desde 1976. Seria sem dúvida um jogo duro, onde os craques brasileiros mediriam forças contra alguns jogadores de legenda no Velho Mundo dos anos 70 e 80. Jogadores como Kenny Dalglish e Graeme Souness. Mas nada disso foi empecilho para o time de Zico. Motivado com o aparente desdém dos ingleses, os rubro-negros fizeram 3 x 0 com 41 minutos de jogo e depois apenas tocaram a bola. Diz-se que o legendário treinador Bob Paisley havia descrito assim a derrota humilhante:"Não sabíamos que esse tipo de futebol era permitido. Os brasileiros não jogam, eles bailam". Certamente havia sido um baile. Um baile que se estendeu ao Brasil na madraguda mais feliz que se tem notícia. Era o Annus Mirabilis (Ano Maravilhoso) de uma equipe maravilhosa. Uma equipe que apenas três anos atrás iniciara um ciclo de vitórias sem precedentes no clube. Com oito jogadores formados nas divisões de base, davam ao Flamengo seu primeiro título nacional, seu primeiro continental e, naquele dia, em Tóquio, seu primeiro mundial.


sexta-feira, 26 de junho de 2009

Quando os meninos tornam-se homens...

Após o título do carioca de 78, o Flamengo venceu outras duas vezes no próprio estado, no ano seguinte. Numa esdrúxula situação, infelizmente tão típica do futebol nacional, dois campeonatos estaduais foram disputados em 79, com o rubro-negro vencendo ambos. Esse feito marcou a obtenção de um tri estadual pela terceira vez na história do clube, o que levou a adoção do famoso escudo com a sigla CRF ladeado por três estrelas, cada uma delas indicando um tricampeonato (42,43 e 44, 53, 54 e 55 e 78,79 e 79).

Zico fora o artilheiro absoluto nos três campeonatos vencidos nestes dois anos. Zico, aliás, ditava a evolução da equipe naquele período. Contestado por seu modesto desempenho na Copa do Mundo de 1978, o Galinho amadurecera perante às críticas e de um craque-promessa, se transformava, jogo-a-jogo, na realidade que todos esperavam. Assim como Claudio Coutinho, que fora o técnico da seleção na Copa da Argentina, e que moldava suas imberbes idéias sobre o futebol total, adaptando-as aos limites de seus jogadores e deles extraindo o melhor rendimento. O Flamengo começava a ganhar forma.

Não obstante, o insucesso do clube no Campeonato Nacional, levava os críticos a imporem-lhe o rótulo de "time de Maracanã" em alusão à queda de rendimento da equipe quando jogava fora de seus domínios. Mas, a evolução era notória. O Flamengo de 79 perdera a oportunidade de ir até as semifinais para a própria auto-confiança, subestimando o bem montado, embora tecnicamente inferior, time do Palmeiras, à época treinado por Telê Santana.

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Assim como a queda de 77 servira para o clube se fortalecer e ganhar os três campeonatos no Rio, a derrota de 4x1 para os alviverdes, em pleno Maracanã, sôou o alerta para uma mudança na estrutura e organização do clube na tarefa de conquistar um título nacional.

Em 1980, o Flamengo fez uma caminhada obstinada rumo a este objetivo. Foram 22 jogos, com 14 vitórias, duas derrotas e 6 empates. Dessas duas derrotas, uma acontecera contra o frágil Botafogo-Pb, numa outra noite de pouca concentração, no Maracanã e a segunda só viria no primeiro jogo da final, contra o Atlético-Mg, no Mineirão.

Por ter melhor campanha nas semifinais, o Flamengo tinha o direito de decidir em casa e de jogar por uma igualdade no placar conjunto das duas partidas. Na primeira partida, um jogo intenso em que a derrota por 1x0 não foi de todo má, pese as circunstâncias da ausência de Zico e de ter perdido Rondinelli, com o maxilar fraturado, após cotovelada de Palhinha.

Era uma época diferente aquela. Uma época em que as equipes abusavam da "malandragem" de lances ríspidos, que geralmente eram tolerados pela arbitragem, para determinar uma vitória. Esse era o signo da experiência. E o Atlético podia ser considerado um time bastante experiente, pois contava com a presença de jogadores especialistas nesse tipo de situação como o próprio Palhinha, o zagueiro Osmar e Chicão. Mas o Atlético não era apenas um time "malandro". Era também uma equipe extremamente técnica, com uma dinâmica de jogo veloz, ditada pela capacidade cerebral e pulmonar de Toninho Cerezo, pela esplendorosa categoria de Reinaldo, além da impulsiva presença de Éder. Sua defesa ainda contava com o jovem e talentoso zagueiro Luisinho. Essa, sem dúvida, foi uma das maiores, senão a maior final do Campeonato Brasileiro. Uma final que juntou 6 titulares da maravilhosa seleção que dois anos mais tarde encantaria o mundo na Copa da Espanha.



Por seu lado, o rubro-negro que, em 78 já havia adicionado à juventude do time à liderança e experiência de Paulo César Carpegiani, contava no gol com Raul Plasmann. Raul que fora o goleiro de duas gerações consagradas no Cruzeiro, a começar pelos anos de Tostão e Dirceu Lopes e finalizando com o time que ganhara a Libertadores em 1976, vinha para ocupar a posição de Cantarelli que, apesar de ser bastante querido por todos os jogadores, não oferecia a mesma segurança que o experiente goleiro que se vestia de amarelo. Além disso, os garotos do time já haviam amadurecido. A espinha dorsal Andrade, Júnior, Tita e Zico, já estavam entre os melhores do país. No que concerne à parte técnica, o Flamengo já era um time deslumbrante. Com variadas mudanças de posição entre os jogadores, coisa que era possível pela capacidade técnica de muitos deles, o que permitia a Júnior sair da lateral e se somar à armação pela meia ou de Andrade revezar com Carpegiani e Zico com Tita. Era um time que ensaiava as feições do jogo pretendido por Coutinho. Como no basquete era necessário a movimentação, como no boxe era preciso agredir o adversário e não deixá-lo respirar. Foi uma campanha com 46 gols, mais de dois por jogo, na média, que teve Zico com 21 gols como artilheiro da competição e que foi decidida de forma dramática.

Aquela final não precisa ser posta em palavras, é melhor ser vista em imagens e sentida em sua dramaticidade completa. Na batalha de dois gigantes. Na incrível capacidade de seus protagonistas. Duas equipes maravilhoas, numa época que o futebol, além de seus vícios, carregava ainda o perfume dos artistas...

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Para o Flamengo, foi a vitória consagradora. Era o primeiro título nacional, uma conquista que amadurecia de vez aquela geração que atestava o caminho escolhido e que pavimentava o sucesso que ainda estava por vir.

O início de uma era

Era 1977, o ex-juvenil Tita, perdia um pênalti contra o Vasco na decisão do segundo turno do campeonato carioca daquele ano. Como os cruzmaltinos já haviam conquistado a Taça Guanabara (primeiro turno do campeonato), o Vasco foi campeão sem a necessidade de uma decisão. Diz-se que após aquele jogo, abatidos, um grupo de jogadores do Flamengo saíram para extravassar mágoas pelos bares cariocas. Entre eles, estava Tita, que ainda com 19 anos carregava o fardo de anti-herói. Diz-se também que em meio a dor e ainda ébrios, os jogadores fizeram um pacto de não repetirem aquele ritual.



É natural que todas as campanhas bem-sucedidas tenham uma história de tristeza e drama que a inicia. Se a narrativa acima é mesmo verdade ou apenas parte da mitologia que inicia os feitos posteriores, não é de meu domínio. Entretanto, ela serve a tal. Em meio a dor da derrota, começava-se a forjar a alma da geração mais vencedora da história do CR Flamengo. Uma geração que reconquistaria de imediato a supremacia em seu estado, que daria a supremacia nacional, nunca tida pelo rubro-negro, e que alcançaria seu ápice ao tocar o céu com um título continental e outro intercontinental. Portanto, a tal história sobre o pacto de camaradagem e vitória criado em meio a dor de uma derrota, serve bem ao propósito de iniciar uma saga, a mais bela do clube de maior torcida do Brasil.

No entanto, não é a história apócrifa da derrota de 77 que é reconhecida como o marco criador da chamada Geração de Ouro rubro-negra. De fato, um ano depois, um gol épico de Rondinelli, no final de um jogo que também decidia um segundo turno entre Flamengo e Vasco, abre aos flamenguistas o palco de um sucesso que duraria por 6 anos consecutivos. Ao time de 77, havia se unido um jogador que participara do maior esquadrão brasileiro da década de 70, Paulo César Carpegiani que, juntamente com Paulo Roberto Falcão, comandava o meio-campo do Internacional, bicampeão nacional em 75 e 76. Mas, ao olhar para a escalação do time se percebe como o Flamengo começava a construir uma base que era melhorada pontualmente com o acréscimo de jogadores mais experientes ou mais talentosos mas que se encaixavam num sistema e num time que pouco mudava. Dos nomes que perderam a decisão para o mesmo Vasco um ano antes, ainda estavam 7 para comemorar a vingança, além do técnico Claudio Coutinho, o engenheiro dessa equipe.

O jogo de 1978 está no imaginário do torcedor rubro-negro como a origem de toda a glória, como o marco fundador de uma hegemonia. Mesmo os que não viram, sabem que um escanteio ao 41 minutos do segundo tempo de um jogo que se terminasse empatado daria ao Vasco o título do segundo turno e ao campeonato a chance de uma final entre o vencedor deste turno e o campeão da Guanabanara, o Flamengo. Flamengo que se sagraria campeão estadual com uma vitória, num cenário muito similar ao de 77, mas com os papéis invertidos. Então, no dito momento, 41 minutos do segundo tempo, com o placar inviolável até ali, com a equipe da Colina, de tudo fazendo para manter a igualdade, uma bola sai pela linha de fundo em escanteio, após mais uma tentativa flamenguista de vencer o goleiro Leão, o melhor do país naqueles tempos. E Zico, o craque e alma daquele time, que nunca cobrava escanteios é impelido a fazê-lo pelo exíguo tempo que restava para o final da partida. E Rondinelli, um zagueiro nada técnico, mas extremamente voluntarioso, do gênero que não acredita em derrotas sobe até a área, vê a bola cruzar o primeiro poste do gol e lhe chegar a cabeça, para num desfecho mortal, quase um chute, vencer, finalmente o arqueiro vascaíno, iniciar uma ensandecida comemoração, dar a vitória do jogo, do turno, do campeonato ao Flamengo. Para inaugurar ali duas fases. Uma para ele mesmo, Rondinelli que, a partir daquele momento recebe da torcida a alcunha de "Deus da Raça" e a outra para o clube que não consegue mais parar de vencer.


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Seja a partir da dor de uma derrota ou da loucura de uma vitória, os rubro-negros têm uma história para contar sobre o início daquela geração que tudo ganharia, que encantaria a todos com um futebol elegante, dominador e belo. Que teria a consagração de um dos maiores nomes do esporte nacional e que, para sempre, estaria na mitologia do esporte.

Próxima série: O Flamengo de Zico

Segundo a vontade da maioria dos que opinaram, após o encerramento das postagens desta série sobre o FC Barcelona, começarei uma nova que discutirá o período do CR Flamengo, conhecido como a Era Zico. Foi a mais dourada e genial geração que o Flamengo possuiu e uma das mais respeitáveis e vencedoras equipes do futebol brasileiro. Nesta série, além dos textos, já comuns, que tentarão lançar luz sobre os principais aspectos desse time, postaremos partidas históricas que marcaram as principais conquistas do clube, tais como:

1978 - Final do segundo turno do carioca - Flamengo x Vasco (famoso gol de Rondinelli)
1980- Final do Campeonato Brasileiro - Flamengo x Atlético-Mg
1981 - Final do Carioca - Flamengo x Vasco
1981 - Final da Libertadores - Flamengo x Cobreloa
1981 - Final do Mundial Interclubes - Flamengo x Liverpool
1981 - "Jogo da Vingança" - Flamengo x Botafogo
1982 - Final do Campeonato Brasileiro - Flamengo x Grêmio
1982 - Campeonato Brasileiro - Flamengo x São Paulo
1982 - Campeonato Brasileiro - Flamengo x Atlético-Mg
1983 - Campeonato Brasileiro - Flamengo x Vasco
1983 - Final do Campeonato Brasileiro - Flamengo x Santos
1987 - Semifinal do Brasileiro - Flamengo x Atlético-Mg
1987 - Final do Brasileiro - Flamengo x Inter (dois jogos)

E mais alguns documentários pertinentes. Aguardem! Por outro lado, uma nova enquete já está no ar para decidirmos sobre como continuaremos as postagens. Espero sua opinião.

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Informes

Estou encerrando a série de postagens sobre o F. C. Barcelona. Essa foi uma forma de homenagear a história de um clube que me seduz por tudo que o envolve, mas também para homenagear sua fabulosa temporada. Claro que sempre esquecemos de citar algo ou destacar um ponto que talvez seja de fato importante. Então peço que quem tiver uma sugestão qualquer a respeito dessa série ou de outra presente no blog, mencione sua sugestão no campo destinado aos comentários, que se encontra no lado direito. Caso queiram sugerir alguma série ou solicitar algum acréscimo de um jogo, eu farei o que puder para antendê-los. Obrigado.

Evaristo, o primreiro ídolo brasileiro de azul e grená

O Barcelona, principalmente, a partir dos anos 90 sempre teve em suas fileiras um brasileiro de destaque. Quatro deles, Romário, Rivaldo, Ronaldo e Ronaldinho foram laureados como melhores jogadores do mundo, enquanto estavam em Barcelona. Porém, o primeiro e maior artilheiro brasileiro do clube de Ciudad Condal foi Evaristo de Macedo.

Proveniente do Flamengo, Evaristo chega, em 1957 ao Barcelona com as bençãos de Josep Samitier, ex-ídolo blaugrana e o mesmo dirigente que havia endossado a contratação de Kubala. Sobre Evaristo, Samitier atestou:

"Um jogador de valentia difícil de superar. O homem de maior coração que já conheci. Joga muito bem com a cabeça e é rápido como um raio. Sabe chutar forte e com precisão. É um atleta! Sabe apoiar o companheiro, domina bem a bola. Que mais se pode pedir? Acreditem-me: é um fora-de-série!"

Samitier não se arrependeu de suas palavras. Evaristo, posicionado entre a ponta de lança e a posição de centroavante fez uma dupla que marcou época com Eulogio Martínez, no time das 5 copas. Entre 57 e 62, quando militou no clube catalão, Evaristo conquistou 2 Ligas, 2 Copas nacionais e 2 Copas das Feiras, a predecessora da Copa da Uefa. Em suas 226 partidas disputadas, Evaristo ficou conhecido como um jogador de grande qualidade técnica e faro de gol assassino, deixando isso evidente com sua marca de 178 tentos, numa impressionate média de 0,8 gols por partida, sendo o mais celebrado aquele que marcou na vitóra de 2x1 contra o Real Madrid e que ajudou ao Barcelona eliminar os merengues nas semifinais da Copa dos Campeões da Europa de 1960-61. Em Barcelona, Evaristo de Macedo ficou até 1962 quando, após desentendimentos a respeito de sua naturalização, deixou o clube para ficar três anos no rival de Madri, onde ganhou outras 3 Ligas, antes de retornar ao Brasil.

Após a carreira de jogador, Evaristo tornou-se treinador, tendo como grandes destaques de conquistas um título nacional com o Bahia e o fato de ter dirigido a Seleção Brasileira, nos anos 80.


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terça-feira, 23 de junho de 2009

Um mito, uma lenda e um discípulo

Diz a lenda que os torcedores do Barça inundavam o estádio de Les Corts para ver aquele húngaro jogar de maneira tão numerosa e frequente que a diretoria não viu outra solução que não a de construir um novo estádio com capacidade maior de público. Assim, estava creditado a Ladislao Kubala a razão da existência de uma das mais importantes peças do tesouro barcelonista, seu Camp Nou. Seja isso verdade ou não, o fato é que este húngaro que fugiu da ditadura de seu país para se aventurar na europa ocidental foi o primeiro nome de apelo popular da história do clube.

Ladislao Kubala Stecz ou Laszlo Kubala (para os húngaros) nasceu em Budapeste no ano de 1927. Durante a II Grande Guerra, militou na Tchecoslováquia pelo Bratslava, chegando a atuar pela seleção nacional. Retornou depois a Hungria, de onde fugiu do regime da Cortina de Ferro, disfarçado de soldado soviético. Kubala chega a Itália e tem seu estado contestado pela federação húngara, que o denuncia a Fifa, que por sua vez o suspende das atividades profissionais por um ano. Vivendo em um campo de refugiados na Itália, Kubala e outros jogadores húngaros em situação similar formam uma equipe amadora que roda meia Europa a enfrentar equipes em amistosos. Sua habilidade chama à atenção dos dirigentes do Torino italiano, naquele momento a grande equipe da bota e uma das melhores do planeta. Por problemas de acerto contratual, Kubala não consegue militar pelo clube de Turim. O que poderia ser uma frustração, acaba por se tornar num grande lance de sorte, visto que alguns meses depois, o avião que trazia a equipe italiana de um giro europeu, se choca contra a torre da catedral de Superga, matando toda uma geração brilhante do futebol italiano e privando familiares e torcedores dos integrantes do tetracampeão nacional.



Depois do episódio com o Torino, a equipe de Kubala continuou se exibindo por países da Europa Ocidental e foi num jogo contra o Espanyol de Barcelona que, o jogador de 23 anos à epóca, despertou o interesse de um antigo ídolo e então dirigente blaugrana, Josep Samitier. Em 1950, assinava contrato com o clube catalão. De azul e grená Kubala iniciou a primeira época dourada do Barcelona.

Ainda punido pela Fifa, tem que esperar até o ano seguinte para começar a jogar. Mas em seus dez anos no clube, Kubala vence 4 ligas, igualando o número de títulos que o Barcelona tinha até aquele momento, depois de mais de vinte anos de competição. Venceu também 5 vezes a Copa Espanhola, então chamada Copa Generalíssimo (no arroubo do general Franco de relacionar seu nome a todos os eventos populares) e duas vezes a chamada Copa das Feiras, uma versão inicial da Copa da Uefa. Em 349 partidas deixa impressionantes 272 gols. Ladislao Kubala, junto com outras lendas da história do clube como o goleiro Ramallets e os atacante Luis Suarez e Evaristo de Macedo, dá ao clube um período fausto em sua história, no qual faltou apenas a conquista da maior competição continental, a Copa dos Campeões. Em 1961, o Barcelona derrotou o Real Madrid nas semifinais, mas parou no Benfica e nas traves do estádio de Berna, perdendo o título por 3x2 (este jogo você pode ver completo aqui). Sua classe de ponta de lança, de lançamentos precisos, passes milimétricos e apetite goleador, fecha as cortinas um ano depois, quando numa despedida que contou até com a presença de adversários históricos como Di Stefano e Puskas, envergando a malha do Barcelona, Ladislao encerra sua carreira como jogador pelos culés. Na sequência ele torna-se treinador, sem alcançar nenhuma glória digna de sua carreira dentro das quatro linhas.


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O fim da era de Kubala e do time da década de 50 marca o início de um período de "vacas magras" no Camp Nou. Foi necessário esperar 14 anos para que os blaugranas voltassem a conquistar uma liga nacional. Isso aconteceu sobre a égide de um outro ícone da história barcelonista, Johann Cruyff.

Johann Cruyff, chegou ao clube com o campeonato da temporada 1973-74 em andamento e o Barça não ocupava mais do que a penúltima colocação na tabela. Uma reação espetacular que incluiu a famosa goleada de 5 x 0 no Real Madrid em pleno Santiago Bernábeu. Depois deste título, Cruyff só voltaria a vencer algo pelo Barcelona em sua última temporada, no ano de 78, quando ganhou a Copa do Rei. Se não conseguira dar ao Barcelona o mesmo número de trófeus que tinha logrado com o Ajax, Cruyff serviu para recuperar a auto-estima catalã e trazer de volta o Barcelona ao primeiro plano nacional e continental. Afinal, era ele naqueles anos 70, o melhor jogador do planeta. Sua identificação com o clube, a cidade e a região ficou tão evidente que deu ao seu filho, nascido em Barcelona, o nome do padroeiro da Catalunha, Jordi, numa época em que a ditadura franquista interditava o uso de símbolos regionais. Mas Cruyff sempre foi um personalista.

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Dez anos depois de sua saída ele retornaria ao clube, desta vez como treinador. Se dentro de campo, Cruyff não conseguira refazer o caminho de Kubala e instaurar uma segunda era dourada para os blaugranas, a partir do banco ele montou uma das maiores equipes da história do azul-grená. Era conhecida como "Dream Team", em referência ao invencível time de basquete norte-americano que havia ganho a medalha de ouro nos Jogos Olímpicos disputados na mesma Barcelona. Foi sua segunda experiência como treinador. Depois de vencer, com seu Ajax, duas Copas da Holanda e uma Recopa Européia, Cruyff restou 8 anos no comando do Barcelona, adicionando 4 ligas, uma Copa do Rei, uma Recopa Européia, uma Supercopa Continental e, o mais almejado título de um clube do Velho Continente, a Copa dos Campeões, que já se chamava Liga dos Campeões da Europa. Assim como no período de Kubala, o Barça voltava a ser uma equipe vencedora e, diferentemente do mesmo período, era bem-sucedido em trazer a taça "das grandes orelhas" para o Camp Nou.

Mas a contribuição de Cruyff não era apenas com o número de títulos que o Barcelona amealhava. Com ele o clube ganhou uma filosofia de jogo, quase sacra, que encontrou lugar naquela equipe do início dos anos 90 e não mais abandonou o imaginário do torcedor culé. Um cronista espanhol escreveu certa vez que o Barcelona pode atravessar maus momentos, mas sempre terá o ensinamento da Era Cruyff para retornar e se refazer. De fato, aquela equipe se caracterizou por uma forma peculiar de jogar futebol. Era o espelho da pretensão e das idéias de seu comandante, que buscou recolocar em campo a visão do jogo que ele empregara em seu período com a camisa 14 do Ajax e da Seleção Holandesa. Uma equipe construída por um grande número de jogadores hábeis, que empregava uma marcação pressão sufocante a partir do campo adversário, que concentrava a posse de bola por intermináveis minutos e que, em movimentos bem desenhados e repentinos, acelerava o ritmo de seu ataque, chegando em um golpe ao gol. Um ataque que sempre contava com jogadores de grande capacidade técnica como Laudrup e Stoichkov, no ínicio da era "Dream Team", e que contou com a chegada Romário, em seu final. Uma equipe que também tinha jogadores como Ferrer, Bakero, Beguiristain, Sergi e Guardiola que conferiam a identificação dos onze com a cultura catalã.

Depois da saída de Cruyff, o clube passou por momentos turbulentos. Mas a verdade é que sempre que retornou ao seu melhor papel, era a filosofia do vencer com espetáculo, desenvolvida pelo "Dream Team" que estava presente. Em 2004, uma nova fase barcelonista, voltou a empregar tal filosofia a partir do trabalho de Frank Rijkaard, antigo díscipulo de Johann no Ajax e que contava com, à época, o gênio de Ronaldinho. Foram dois títulos da Liga, uma vitória emblemática sobre o Real Madri, em Madri por 3x0, quando repetindo o que havia acontecido com Johann nos famosos 5x0, o Gaúcho saiu de campo aplaudido de pé pelos madrilenhos, que reconheciam a superioridade de seus rivais e sua classe. Veio também com essa mesma equipe um outro trófeu da Liga dos Campeões. Essa triunfo encerrou essa nova fase do Barcelona e dois anos se passaram com a equipe sendo carcomida por problemas internos e assistindo a decadência de seu melhor jogador e a inoperância de seu técnico. Na temporada 2008-2009, Josep Guardiola, o mesmo Guardiola que comandava o meio-campo do primeiro "Dream Team" assumiu o posto de Rijkaard com a missão de revitalizar o jogo do Barça. No ínicio, parecia apenas uma tentativa desesperada da diretoria em acalmar sua torcida, trazendo um ex-ídolo e um catalão para o banco de reservas, pois Guardiola nunca treinara uma equipe profissional.

Mas, como seu tutor, Guardiola surpreendeu a todos. Foi a mais sensacional temporada do Barcelona. Usando da mesma receita desde Cruyff, com uma equipe extremamente hábil, que buscava incessantemente a vitória, que primava pelo espetáculo a partir de um meio campo de fantástica capacidade de gerir o jogo com Iniesta e Xavi e contando em seu ataque com jogadores de grande classe,como o imparável Lionel Messi, esse time marcou nada menos que 105 gols no campeonato nacional e vencendo a Liga, a Copa do Rei e a Liga dos Campeões na mesma temporada, feito inédito até então para uma equipe espanhola. Os números, no entanto, foram uma consequência do futebol praticado pelo Barcelona que, seguindo o ensinamento plantado no início dos anos 90, contrariando a tendência corrente em que a maioria das equipes buscavam apenas meios de tornarem-se sólidos na defesa, era mais importante sufocar o adversário e oferecer ao público o futebol em sua versão mais visceral, a do espetáculo e da diversão.



Por vezes, perdido em meio à mediocridade que tomou conta de todo o espírito humano nas últimas décadas, esquecemos que o futebol não é mais que um espetáculo e, que se não toleraríamos que um ator entrasse em palco e nos fizesse dormir apenas para ser aplaudido no final, porque deveríamos ficar satisfeitos com jogos em que dois times se arrastam para apenas fazer um gol e nada mais. Felizmente, ainda existem brisas como o futebol do Barcelona para nos lembrarem de que estamos vivos e de que é possível sentir essa beleza dentro de campo. Essa é uma das maiores jóias da coroa barcelonista. Algo que começou nos anos 50 com Kubala, que encontrou no gênio e na personalidade de Johann Cruyff sua forma mais pura e que continua com seus discípulos, felizmente. Afinal, passe ou não por maus momentos, o Barça tem sempre um porto seguro para retornar....

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Tot el camp és un clam...

video

Tot el camp
és un clam
som la gent blaugrana
Tant se val d'on venim
si del sud o del nord
ara estem d'acord, ara estem d'acord,
una bandera ens agermana.
Blaugrana al vent
un crit valent
tenim un nom
el sap tothom:
Barça, Barça, Baaarça.!
Jugadors, seguidors,
tots units fem força.
Son molt anys plens d'afanys,
son molts gols que hem cridat
i s'ha demostrat, i s'ha demostrat,
que mai ningu no ens podrà torcer
Blau-grana al vent
un crit valent
tenim un nom
el sap tothom
Barça, Barça, Baaarça

Mais que futebol

Em um mundo cada dia mais homogêneo, é difícil compreender diferenças que se estabelecem pela história de séculos e por divergências culturais extremamente enraizadas. Muitas vezes tal comportamento é confundido com uma radicalidade estérea ou com uma simples moda passageira. A visão que nós, povo brasileiro, temos de países como a Espanha se torna equivocada quando apelamos para o nosso próprio auto-conhecimento para invocar as diferenças regionais. Distintamente do que ocorre no Brasil, onde por vezes o espírito segmentador encontra lugar na região sul do país, as diferenças culturais das regiões espanholas são muito mais pronunciadas. Pese que o Rio Grande do Sul possui seu histórico de disposição para autonomia que remonta aos anos do Império Nacional, as regiões espanholas, notadamente Galícia, País Basco e Catalunha, o tem há muito mais tempo. Na verdade, ao tempo que marca a criação do reino espanhol. E ainda com um agravante: cada uma destas regiões está tão separada culturalmente do poder central que emana de Castela (região onde está Madri) que elas possuem uma língua própria. Isso permite que um espanhol, muitas vezes se considere um estrangeiro mesmo estando em seu país.

O caso da Catalunha é emblemático em muitos aspectos. Anexada ao reino da Espanha em 1714 depois da chamada Guerra da Sucessão, a Catalunha perdeu sua representação de direitos próprios através da dissolução da Generalitatm seu corpo administrativo. Essa anexação pela coroa espanhola não se mostrou estável no espírito dos catalães, o que levou ao surgimento de movimentos políticos e populares como a chamada Renaixença para o Catalanismo, criada no século XIX. Sendo uma área bastante rica , a Catalunha sempre teve seu caráter de estado autônomo bastante pronunciado. Em 1914, forma-se a chamada Mancomunitat, organismo administrativo catalão reconhecido pelo governo nacional espanhol. Este organismo, entretanto, só duraria até 1923 quando cai sob a pressão da ditadura comandada por Primo Rivera. Esse é um dos capítulos no século XX que marcará uma época sombria para a região e todo o país espanhol. Apesar do reconhecimento de Comunidade Autônoma e de ver um estatuto próprio se desenhar como uma espécie de constituição, a Catalunha sofrerá com a ascenção do General Francisco Franco, que toma o poder central espanhol depois da chamada Guerra Civil (1936-39). Estando na vanguarda do sindicalismo espanhol, a Catalunha será desde sempre um adversário do regime franquista. E durante o período da ditatura do Generalíssimo, os catalães serão “doutrinados” a abandonarem suas características de cultura autônoma, sendo movidos à assimilação dos usos e costumes determinados pelo poder central que tinha sua representação na capital Madri. A proibição do uso do dialeto catalão era um dos exemplos. Deixe-se claro que não apenas a Catalunha sofreu com a férrea disposição de Franco em concentrar o poder. O País Basco até os dias de hoje carrega as marcas desse período, com a permanência de atividades do grupo ETA (Euskadi Ta Askatasuna, do basco Pátria Basca e Liberdade). Assim como os catalães, os bascos foram privados de sua autonomia politica, ideológica e cultural. Esse período de tensão que marcou a época do regime de Franco, “ajudou” a sedimentar as diferenças entre as regiões espanholas, mantidas à força unidas, mas escondendo rivalidades e ódios intrínsecos.

No campo de futebol essas tensões, obviamente, não podiam passar despercebidas. Desde sua fundação, o FC Barcelona tinha se firmado como uma bandeira do catalanismo não apenas dentro do território nacional, mas também no exterior. As manifestações que ocorriam na esfera esportiva não passavam despercebidas aos olhos dos líderes do governo central. Durante a ditadura de Primo Rivera, por exemplo, o antigo estádio do Barça, chamado Les Corts, foi fechado após um jogo em que a torcida catalã vaiou a Marcha Real. O ditador também exigiu a destituição de seu presidente, o mitológico Joan Gamper. Em 1936, em meio à batalha pela tomada de poder, as tropas de Franco assasinaram o presidente blaugrana, Josep Sunyol, que era também militante da Esquerda Republicana da Catalunha. A rivalidade entre Real Madrid e Barcelona foi vastamente alimentada durante esse período ditatorial devido à simpatia explícita que Franco tinha pelos merengues e pela tentativa de suprimir do Barcelona quaisquer traços do catalanismo. Enquanto o Real Madrid era enxergado como uma espécie de embaixador do governo, num dos muitos exemplos em que poderes políticos usam de subterfúgios para doutrinar uma população, repetindo a antiga fórmula do pão e circo, o FC Barcelona sofria com a interferência do estado. Presidentes foram nomeados por Franco para administrar o clube, o nome tradicional Footbal Club Barcelona foi alterado para Club de Futbol Barcelona, com o intuito de suprimir influências catalãs e anglo-saxônicas que remontavam à sua fundação. Até mesmo o escudo foi mudado para a retirada da bandeira catalã que só voltaria a estar presente 9 anos após a proibição.

Apesar de tudo, o Barcelona tornou-se a grande voz do catalanismo, seu mais conhecido embaixador. Era no Camp Nou que se falava catalão quando não se era permtido usar o dialeto em nenhum outro lugar. Foi assim que se moldou o cárater desse clube que atravessou as crises que substanciaram o cárater do povo que represente e o seu próprio. Foi assim que nasceu uma das maiores rivalidades do futebol mundial, temperada com diferenças e incendiada pela triste memória de anos sombrios para a Espanha e o mundo.

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Més que un club...

A entrada do Camp Nou, estádio do FC Barcelona, revela certas peculiaridades que ajudam a entender a diferença entre esse clube e outros pelo mundo afora. A primeira coisa que se pode ver é um velho ônibus amarelo, com uma faixa nas cores azul e grená. É um modelo de um antigo ônibus que servia para transportar o time de futebol em épocas em que as estrelas se misturavam à população sem status de superstars.




Mas o que chama à atenção é que dentro desse ônibus, sentados em cada janela, estão estátuas de jogadores antigos. Alguns deles que marcaram época usando a camisa blaugrana, como o goleiro Ramallets e o astro húngaro Ladislao Kubala. Mas também se pode encontrar alguns personagens singulares, como Pelé, que jamais vestiu a camisa do Barça e Di Stefano, que se notabilizou com a malha branca do Real Madrid, arquiinimigo confesso do clube catalão.

Essa estranheza se dissipou de meu espírito quando continuei a me mover em direção à entrada do estádio. Na parede da fachada principal se encontra gravados os nomes de todos os jogadores que vestiram a camisa do Barcelona.

Ao ver isso, percebi que o Barcelona sentia a importância de homenagear os construtores do esporte, mesmo quando eles não estavam de seu lado e, por vezes, mesmo quando eles contribuiam para algumas de suas feridas.

O Barcelona é decididamente um clube distinto. É possível sentir esta distinção através da forte relação que existe entre a cidade de Barcelona e seu filho favorito, o Barça, como é carinhosamente chamado no diminutivo do nome em catalão. Aliás, é sobre a bandeira da catalunha que essa cumplicidade encontra lugar. O Barcelona é o maior embaixador da causa catalã e mostra-se orgulhoso disso.

Não poderia ser de outra forma. Em toda a sua história, o Barcelona esteve sempre como uma das figuras de proa no movimento do reconhecimento da autonomia da Catalunha. Assistiu desde o fechamento de seu antigo estádio Les Corts pela ditadura de Primo Rivera, nos anos 20, passando pelo assasinato de seu presidente Josep Sunyol, pelas tropas franquistas, nos anos 30 até sua intervenção pelo governo do mesmo general, que lhe privou do nome e de sua associação com a causa catalã. Mas, apesar de todas as dificuldades, quando a ditatura do general Francisco Franco proibiu o livre uso da lingua catalã, era no estádio de Camp Nou, que os orgulhosos moradores daquela região se encontravam para conversar em sua própria língua. O estádio do Barça é, assim, uma espécie de igreja para os catalães. Uma igreja que lhes dá tanto orgulho como a obra-prima de Gaudí, a catedral da Sagrada Família.

Essa relação de simbiose entre os ideias políticos e os motivos esportivos é uma das maiores riquezas do FC Barcelona. É ela que estabelece uma ligação umbilical difícil de ser reproduzida em outros clubes. Mas, além disso, o Barcelona transformou-se numa bandeira mais universal para os amantes do esporte. Desde que um homem marcou as diferenças em sua história. Esse homem já era uma lenda quando desembarcou no aeroporto de El Prat, em 1973. Johann Cruyff, marca um antes e um depois na vida barcelonista. A despeito de muitos considerarem Kubala, o maior jogador da história do clube, é Cruyff que dá sentido ao Barcelona em duas épocas distintas de sua vida. A primeira como jogador, que aporta ao clube seu status de melhor jogador do mundo à época, contribuindo para uma renascença do Barcelona que estava, até aquele momento há 14 anos sem ganhar um título nacional. Na primeira temporada, a consagração. Cruyff, voltaria na década de 90 ao Barcelona para formar uma equipe que ficou conhecida com Dream Team, em referência ao jogo de espetáculo proporcionado pelos estadunidenses do basquete,nas Olímpiadas de 92, em Barcelona. Essa equipe, ganhou quatro vezes consecutivas a Liga Espanhola e deu o primeiro trófeu continental ao clube. Entretanto, mais do que isso, Cruyff plantou uma filosofia que se tornou o sinônimo do Barcelona, o do jogo belo. O de que a vitória não era o bastante, de que o espetáculo era não só necessário, como imperativo. Desde então, o Barcelona passou pela mão de vários treinadores. Passou por momentos bons e ruins, mas essa idéia retumba no Camp Nou como uma lei. O Barcelona não é apenas um clube de futebol. É uma idéia. Uma idéia do orgulho catalão. Uma idéia do espetáculo do futebol. Nos próximos posts, eu tentarei descrever um pouco dessa sensação tão bela que une esse clube à vida e aos sonhos dos amantes do futebol e de seus torcedores locais. Pois, como estabeleceu o presidente Narcis de Carreras, em 1968, o Barça é "més que un club".


sábado, 13 de junho de 2009

Craques que o passado não me deixou ver: Fausto, a maravilha negra

Texto de Antonio Falcão

Tanto quanto o paciente do quarto 301, irmã Catarina viu que a luz da vela do oratório era fraca e semi-apagada. Há muito, na função de caridade daquele sanatório escondido nos cafundós do estado de Minas Gerais, a freira convivia com a morte de tuberculosos.

E com a de Fausto dos Santos – a quem ela incutiu a fé cristã através de doutrinação oral e de livro emprestado – não seria diferente. Só que, desde a tarde, o recém-convertido ardia em uma febre de graus elevados e a respiração sôfrega dava os pulmões como corroídos. Em todo caso, a madre rezou por um milagre, e pediu que o negro que o Rio de Janeiro lhe enviara surrupiasse do tempo algumas horas de quebra. Em vão: Fausto morreu assim que a religiosa saiu. À noitinha, quando ela voltou ao 301, a rigidez cadavérica se acentuara, razão pela qual irmã Catarina teve dificuldade em cerrar os olhos sem brilho do defunto. E a lhe cruzar as mãos inertes.

Entretanto, o que a freira ou ninguém do sanatório sabia era que aquele morto quase anônimo fora um dos maiores artistas do futebol mundial. E que com ele nascera um estilo fino e altivo de jogar bola. E de viver – mesmo que apenas os 34 anos que viveu.
Tampouco Rosa, a mãe de Fausto, imaginaria que o menino que pariu em 28 de fevereiro de 1905 fosse tão longe. A rigor, quando ela ouviu o choro do menino invadir a cidade de Codó, no Maranhão, apenas torceu que ele crescesse com saúde – o que, por si, já era pedir muito, por força da miséria do Nordeste brasileiro. Na infância de Fausto dos Santos, a vida era só uma chama iluminando o futuro melhor que a sua família foi tentar no Rio de Janeiro, então a capital e a maior cidade do Brasil.

Quando o futuro veio, em 1926, viu Fausto, alto e magro, na equipe carioca do Bangu Atlético Clube, atuando de meia ofensivo. E percebeu que ele era craque definitivo. Definitivo no toque de bola, na matada no peito, no drible e na ginga, no desarme, na preparação do gol, em tudo que viria a ser o futebolista brasileiro. Isso levou Henry Welfare – inglês radicado no Brasil e técnico do Clube de Regatas Vasco da Gama – a chamá-lo para o time do bairro de São Januário. E Fausto resistiu até 1928, quando trocou o Bangu pelo Vasco, clube da rica colônia portuguesa e da gente graúda da cidade. No estádio vascaíno, inaugurado um ano antes, ele luziria. Lá, aos domingos, sua pele negra se fundiu à camisa preta, onde a cruz de malta branca foi fincada à esquerda do peito. Mas a fama esportiva de Fausto não modificou o moço noctívago que ele era, a viver nos bares e bailes de gafieira do Rio.

Em 1929, como eixo (nome que se dava ao médio volante) vascaíno, ele ganhou o título carioca. E o respeito e a simpatia dos que o viam como o cérebro do meio-de-campo, posição para a qual fora deslocado por Welfare, que ignorava o esquema WM, criado por seu compatriota Herbert Chapman e praticado na Europa. Pela fórmula vascaína, Fausto tinha que ter um fôlego fora do comum – dele dependia o ataque. Nesse ano, além de campeão estadual, o negro de Codó estreou com êxito nas seleções carioca e brasileira.


Ano seguinte, disputaria a Copa do Mundo, no Uruguai. Mesmo cheio de craques, o escrete nacional, com três treinos, era composto de uma turma inexperiente e temerosa em fazer feio no exterior. Na estréia, o Brasil perdeu da Iugoslávia. Depois, derrotou a Bolívia. Só com essas duas partidas, Fausto foi o melhor eixo da Copa e a imprensa uruguaia o batizou de Maravilha Negra.

A partir daí, o ídolo brasileiro passou a ser ajudado financeiramente pelos portugueses ricos do Vasco da Gama. Mas com a glória, e as farras, ele vivia a sofrer impertinentes gripes e a não mais jogar, sendo aconselhado a esquecer a madrugada e o álcool.

À época, disseram-lhe que os negros eram predispostos à tuberculose e Fausto tomou isso como exagero racista, seguindo fiel à boemia. Concomitante, veio a ser um atleta irritado e freqüentemente expulso de campo. Mesmo assim, era o Maravilha de sempre: fino, elegante, habilidoso, cérebro da equipe. Tanto que, em 1931, folgando da gripe, foi com os cruzmaltinos à Europa. E encantou Madri, Barcelona e Vigo, que o compararam a um escravo levando o time nas costas. Em Lisboa, o Vasco venceu o Benfica, um misto Benfica-Vitória-Casa Pia e o Sporting, atuando ainda em Póvoa de Varzim, Ovar e Porto.

Pela exibição em Portugal, o preconceituoso cronista Alberto de Freitas disse no diário lisboeta Os Sports: “O centromédio... fez verdadeiras maravilhas em campo, passeando com um à-vontade extraordinário... Com tanta classe até se pode não ser branco”. Porém, na hora do Vasco voltar ao Brasil, Fausto aceitou a proposta – para ele, milionária – do Barcelona.

E na Catalunha fez jus ao nome e maravilhou a todos, inclusive conquistando o torneio da região em 1932. Pelo Barça, o negro brasileiro foi a Paris e teve do jornal France Football este elogio: “Ele faz com espantosa facilidade o que outros fariam com um esforço sobre-humano. Fausto, com seu futebol maravilhoso, veio ensinar à Europa como deve jogar um center-half”. Tal confissão reconhecia que o futebol-arte brasileiro chegara no Velho Mundo.

Mas a gripe voltou a prostrá-lo e isso indispôs o craque com a direção do Barcelona, que exigia que jogasse com febre. Em 1933, ele se transferiu para o clube suíço Young Fellows. E, cuidando dos pulmões combalidos e respirando ar puro, na Suíça ficou apenas dois meses.

Talvez Fausto tivesse consciência da tuberculose e de sua gravidade, mas calou. Em 1934, por já ser profissional, ele não foi à Copa do Mundo na Itália. E o Vasco o adquiriu para ter o título carioca com um time que ia de Domingos da Guia a Leônidas da Silva. Em 35, pelo brilho, Fausto atraiu a atenção do Nacional uruguaio, que comprou o seu passe para vê-lo expulso de campo e brigar com o mundo. A saúde precária do brasileiro não lhe permitia correr os dois tempos de uma partida. E o craque maranhense de Codó voltou ao Brasil para jogar no Flamengo carioca, em 1936.

A seguir, chegou à Gávea o técnico húngaro Dori Kruschner, fã do sistema WM: 3 beques, 2 médios, 2 meias e 3 atacantes. E com ele um rígido treinamento físico, até então inédito no País. Vendo que Fausto já não tinha gás, esse técnico o escalou na zaga. E o craque pediu rescisão do contrato, que lhe foi negada no clube e na Justiça. Na equipe, substituíram-no por Engels, um atacante alemão adaptado como centromédio. Em 1938, porém, vendo-se sem chance e humilhado, Fausto se retratou em carta exaltando Kruschner.

O Maravilha Negra voltaria a jogar com o aparente talento de sempre. Nessa época ele foi, até, cogitado para o escrete nacional que ia a Copa do Mundo, disputada na França. Porém, a velha gripe, cheia de tosse, veio abatê-lo de novo. Uma tarde, após jogar entre os aspirantes do Flamengo, sentiu-se mal e teve hemoptise. Quando quis retornar aos treinos, em 1939, os médicos o enviaram ao sanatório mineiro sem muita esperança de curá-la da tuberculose. E por lá Fausto dos Santos seria enterrado sem grandes pompas em cova rasa, cravada por uma tosca cruz de madeira, sem nome nem data.

PS: Ao contrário do que aconteceu com a resenha de Sindelar, em que eu pude compor graças ao grande material disponível na rede, a biografia de Fausto da Silva parece quase que esquecida. Isso reflete um pouco da pouca cultura de memória que o Brasil possui. Ainda assim, consegui encontrar essa belíssima resenha de Antonio Falcão que acabei por copiar na íntegra, com o devido crédito naturalmente. Adaptá-la seria um crime por não ter nada de mais verossímel a dizer e por perturbar sua composição harmoniosa.

Craques que o passado não me deixou ver: Mathias Sindelar, o homem de papel

Matthias Sindelar (Matěj Šindelář, na grafia original de seu nome tcheco) nasceu em 10 de fevereiro de 1903, em Kozlov, Morávia, que então fazia parte do Império austro-húngaro. Filho de uma família pobre que se mudou dois anos após seu nascimento para Viena , estabelecendo-se no distrito de Favoriten, um subúrbio industrial habitado principalmente pela comunidade tcheca, Sindelar acompanharia as mudanças de seu tempo, estando na vanguarda tanto do esporte que abraçou (o futebol) quanto das posições políticas do efervescente princípio do século. Foi uma dessas efervescências, a I Guerra Mundial, que privou Sindelar da companhia de seu pai, Jan Šindelář, um ferreiro que tombou morto durante os combates da Primeira Grande Guerra. Essa tragédia familiar tornou o então pré-adolescente de 14 anos num chefe de família precoce. Uma família que contava com sua mãe, Marie Švengrová, e mais três irmãs.

Para sustentar a família empregara-se como mecânico, mas a habilidade desenvolvida jogando nas ruas de Favoriten com uma bola de trapos, chamou a atenção do Hertha de Viena, onde ingressou no time de menores aos 15 anos. Por lá ficou seis anos, até se juntar ao clube chamado então pelo nome de Wiener Amateur-SV, futuro FK Austria Viena, um clube ligado à classe média judia da capital austríaca. Ao chegar ao Amateur, Sindelar encontrou um time campeão da última liga e também desconfianças sobre seu físico franzino para o enfrentamento de um campeonato mais duro. De fato, na primeira temporada,
Motzl, como era chamado pelos companheiros, sofreu uma grave lesão nos meniscos o que o levou a uma intervenção cirúrgica bastante complicada para os padrões de sua época, mas que não o impediu de retornar em poucos meses. Nos anos seguintes Sindelar seria campeão da copa da Áustria em 1925 e 1926 e nesse ano também campeão da liga austríaca, que tornara-se profissional um ano antes. Os anos seguintes não foram muito bons para o Amateur que já se chamava FK Austria em 1926. Terminando o campeonato quase sempre no meio da tabela, o FK só voltaria a vencer regularmente na década seguinte, quando conquistaria mais duas copas nacionais e duas edições da Mitropa Cup, a competição de clubes que originou a Copa dos Campeões da Europa. Sindelar, por sua vez iniciava sua trajetória na seleção austríaca.

Sua estréia ocorreu num jogo contra a Tchecoslováquia, marcando na vitória de 2x1 dos austríacos. Nas duas partidas seguintes, Sindelar voltou a marcar mais três gols, dois na vitória contra a Suiça por 7X1 e mais um contra a Suécia em novo triunfo, desta vez por 3x1. Era então o ano de 1926 e Sindelar tinha apenas 23 anos de idade, mas começava a marcar uma nova era para o futebol europeu. As qualidades mais mencionadas no jogo de
Motzl sempre foram seu estilo clássico e elegante, inteligente e simplificador. Rápido, centroavante díficil de marcar, alto e magro, a exatidão e a leveza com que driblava ou executava os passes levaram o torcedor a apelidá-lo de Der Papierene (homem de papel). Com jogadas imprevísiveis e gols de rara beleza, Sindelar tornou-se um dos maiores goleadores da liga austríaca com 161 gols ao longo da carreira, fazendo também 27 gols em 43 partidas pela seleção de seu país e 497 ao todo, registrados na sequência de jogos que pode ser encontrada nesta lista.

Mas a importância de Sindelar para o futebol austríaco e europeu está além do que os números podem mostrar. Para historiadores do esporte como os franceses Jean-Philippe Réthacker e Jacques Thibert,
Der Papierene foi o mais completo centroavante da história do futebol do velho mundo. Além desses testemunhos elogiosos, recai sobre Sindelar o papel de viga mestre para a formação do Wunderteam (o time maravilhoso), um dos primeiros grandes esquadrões do futebol mundial e que, como outros de seu naipe não marcaram sua existência por um grande título, mar por grandes atuações ao longo dos anos. De fato, a equipe montada por Hugo Meisl que conceitou, juntamente com o inglês Jimmy Hogan, uma nova maneira de distribuir os jogadores em campo e efetuar táticas ofensivas, acumulou anos de glória entre o perído de 31 a 34 com marcas espantosas como as 9 vitórias conquistadas em 12 partidas disputadas no período com mais dois empates ambos contra a Tchecoslováquia e a única derrota por 4x3 para os ingleses em Wembley, quando se obsevou uma marcação severa sobre Der Papierene. Entre os triunfos austríacos estão várias vitórias retumbantes como 5x0 na Escócia e na Alemanha, ambos no campo do adversário e um 8x1 na Suécia. A Itália também perdeu em casa para o time maravilhoso por 2x1. Entretanto, foi a Itália que, numa partida muito polêmica devido a todo o clima bélico que cercou a Copa do Mundo de 1934, realizada na bota, tirou a Áustria de uma final a vencendo pelo placar de 1x0 e com um gol de Sindelar anulado pelo juiz da partida. O mesmo que depois apitaria a final que consagraria os italianos como campeões, mas que também tornaria suspeita a participação de Benito Mussolini nos episódios de bastidores daquela Copa, a qual parecia um palco ideal para desenvolver sua propaganda fascista.


Essa seria a primeira vez que o signo do absolutismo marcaria a vida de Sindelar, mas não a última. Nos anos seguintes um preço mais caro que uma desclassificação num campeonato de futebol lhe seria cobrado. Em 1938, a Áustria era anexada pela Alemanha nazista e os jogadores do Wunderteam eram solicitados para fazerem parte da nova seleção alemã que tencionava triunfar na copa da França. Um jogo amistoso entre as seleções da Áustria e da Alemanha tinha sido marcado para fazer propaganda da máquina nazista e para assinalar o final da seleção de Meisl. Diz-se que os jogadores do
Wunderteam tinham sido instruídos a não vencerem a partida. Perdendo gols explícitos no primeiro tempo, Der Papierene marcou o primeiro na vitória por 2x0 contra os estupefatos alemães. Não satisfeito em demonstrar que poderia ganhar quando quisesse, Sindelar ainda comemorou seu gol defronte da tribuna onde se encontravam as autoridades do Reich. Aquilo parece ter marcado o destino do Homem de Papel. Requisitado para participar do time germânico, ele recusou, sempre procurando uma desculpa. Segundo testemunho do técnico alemão Sepp Herberger, que seria campeão do mundo em 54, estava claro para ele que Sindelar se sentia incomodado com a possibilidade de vestir a camisa alemã. De fato, Matthias não gostava da política anti-semita e belicosa dos vizinhos e foi tachado como amigo dos judeus e simpatizante dos comunistas, num relatório da polícia secreta,uma espécie de sentença de morte velada. Deixando o futebol cada vez mais de lado para se afastar do assédio nazista, Sindelar foi encontrado morto em seu quarto em 23 de janeiro de 1939, portanto ainda com 35 anos. Ele e sua namorada, a italiana Camila Castagnola, na versão oficial, foram vitimas de envenenamento acidental por monóxido de carbono, mas as versões sobre um suícidio ou sobre um assasinato encomendado pelas autoridades sempre estiveram em voga para o caso. O fato é que Matthias Sindelar morria deixando um legado concreto e ideológico para a posteridade. Transformara-se em lenda com suas atuações no futebol, moldando um dos melhores times da história do esporte, ganhando vulto como um personagem lendário de uma época romântica. Mas também sendo um homem de seu tempo, se posicionando segundo seus valores e contra os ideais que desprezava, por mais ameaçadores que fossem estes.
Seu lugar na história está assegurado. A maior prova é um dos codinomes que ganhou: "Mozart do futebol". Para um austríaco qual maior reconhecimento poderia haver? Se há, também
esta ele teve. Sindelar foi levado em seu cortejo fúnebre por uma multidão de 40.000 compatiotras e admiradores. Foi sepultado no mesmo lugar que também guarda os restos mortais de Mozart, Beethoven e Schubert. Uma justa homenagem para aquele que foi eleito o melhor jogador austríaco do século passado e que, como seus ilustres compatiotras encheu o coração dos que o assistiram com a poesia do sublime...

Aqui você pode ver um pequeno documentário em espanhol sobre Matthias Sindelar:
  1. Sindelar 1
  2. Sindelar 2

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