Diego Armando Maradona é um desses personagens que o futebol fabrica de tempos em tempos. O conto de fadas que se torna realidade. Da pobreza ao estrelato, num assalto repentino. Para depois vir a queda, o castelo de areia que se esvai.
A frase acima, entretanto, define apenas a generalidade deste personagem. Isso seria a maior parte da verdade, se a pessoa em questão não se denominasse Diego Armando Maradona, um homem tão irrequieto no que concernia ao seu trabalho como o era fora dele. Uma inquietude que é a natural marca da genialidade. O inconformismo de ser apenas mais um.
Maradona nasceu pobre, num subúrbio de Buenos Aires e, como milhares de crianças sulamericanas que são segregadas aos guetos de suas sociedades se apegou à crença de um milagre para ocupar uma posição que lhe permitisse ter uma vida minimamente digna. Em geral, para aqueles que são providos de algum talento, o futebol é uma desssas possibilidades. E para aqueles que, como Maradona, carregam um elã dourado, uma aúrea de divindade, o futebol logo lhe aporta um caminho a seguir. Foi assim com o jovem Maradona. Desde muito cedo elevado à categoria de uma promessa dada como certa, ele evoluiu dos times de pelada para os pequenos, médios até chegar aos grandes como foi inicialmente nos Argentinos Jrs e em seguida no gigante de La Bombonera, o Boca Juniors. Mas, antes de tornar-se um xeneize, Maradona já era esperado como possível participante na seleção de César Luis Menotti que tentaria o primeiro título mundial para a Argentina em solo pátrio. Tinha 18 anos à época e El Flaco Menotti, achou que seria muita pressão para o garoto. Preferiu deixá-lo preservado, mesmo que isso tenha inibido a primeiro grande glória de Maradona, que aumentaria ainda mais a aúrea de semi-deus e o equivaleria, talvez, a Pelé, na mitologia do garoto dourado. Porém, um ano mais tarde, El Pibe D'oro, capitaneava sua seleção de juniores para o título mundial e os olhos do mundo se punham sobre aquele garoto que tinha corpo de homem e cabeça de gênio. Maradona, ficaria na Argentina até 1982 quando, pouco antes da Copa do Mundo assinava um contrato de transferência para o FC Barcelona por 8 milhões de dólares. Tal era a fábula desse valor à época que o ídolo catalão Quini disse: "Nada que jogue futebol pode valer tanto dinheiro!" Os catalães, entretanto, achavam que Maradona era o novo Cruyff, talvez até mesmo um Kubala, capaz de trazer de volta os anos dourados ao Camp Nou.

Concomitantemente à transferência de clube, Diego disputava sua primeira Copa do Mundo, justamente em território espanhol. Em Barcelona, onde se jogaram as partidas da segunda fase, entretanto,
El Pibe viu a Argentina sucumbir ante Itália e Brasil. A pressão sobre ele era tanta que no jogo contra os brasileiros, Diego provoca sua expulsão com uma agressão à Batista. A Argentina não defendia unicamente seu título naquela Copa, mas sua honra de país ferido com à Guerra das Malvinas. Contudo, se o futebol servira de remédio, em 1978, para curar às feridas causadas pelos "desaparecimentos" patrocinados pela ditadura do General Vidella, em 1982, a dose não foi capaz de sedar a dor da derrota para os ingleses.
A Argentina voltou para casa, desclassificada e sem o título mundial. Maradona, continuou em Barcelona, mas seus anos na Catalunha não mudaram a frustração da derrota de 82 Acometido de uma hepatite e depois de uma grave contusão provocada pelo jogador do Athletic Bilbao,
Goikoetxea., Maradona jogou apenas 58 partidas pelos blaugranas nos 3 anos que ficou no Camp Nou. Diz-se que após essa contusão um calvário começou a se instalar na vida do ídolo. Recebendo doses de morfina para superar as dores da contusão, Maradona teria iniciado aí seu vício em substâncias. Depois de curado, a noite de Barcelona proporcionou a tentação final. O último capítulo de sua passagem no Camp Nou foi escrito na final da Copa del Rey de 1984, quando provocou uma briga generalizada e acabou suspenso pela Federação Espanhola. Após esse incidente suas relações com a torcida e com o presidente do clube à época, Josep Nuñez se deterioram definitivamente e ele foi vendido ao Napoli. Seu balanço em solo catalão foi de duas Copas del Rey, uma Supercopa Espanhola e 38 gols, muito aquém do que o Barça esperava quando lhe contratou.
Porém, em Nápoles, a mística do
menino dourado encontraria lugar ideal para florescer. Maradona era muito maior que o clube. No entanto, assumiu sua identidade e a identidade da região. Nápoles é uma cidade que fica no sul italiano e que apesar de sua grandeza física e histórica sempre foi vista com um olhar preconceituoso pelo Norte, a região mais rica do país. Os mais exaltados costumam chamar o lugar de o ponto mais ao norte da África. Talvez identificado pelo sentimento de exclusão que ele tão bem conhecia desde suas origem de pobreza no subúrbio de Lanús, Maradona abraçou a causa dos napolitanos. Além disso, dada sua celebridade e sua capacidade técnica, tinha salvo-conduto para agir como quisesse. Assim, tão à vontade e com o clube se construindo à sua volta, Diego se recuperou do fracasso de sua primeira experiência no futebol europeu com uma conquista que pode-se dizer épica. Em sua terceira temporada, 1986-87, deu ao Napoli o primeiro
scudetto e uma Copa da Itália. Para um clube como Milan, Juventus ou Internazionale, tais aquisições não significariam mais do que dois troféus em sua povoadas salas. Para o Napoli, era apenas a terceira vez a ganhar algo importante, depois de duas vitórias na Copa da Itália nas décadas de 60 e 70. Para o povo napolitano e sulista, em geral, era a vitória dos oprimidos contra os nefastos ricos do Norte italiano. Maradona tornava-se Deus.

Na verdade, o divino já o havia tocado no ano anterior. Os campos mexicanos, que em 1970 serviram para canonizar Pelé em seu último mundial, foram os mesmos que assistiram assombrados às perfomances do pequenino argentino. Suas atuações estão entre as mais decisivas que o mundial já conheceu e, certamente, nunca uma equipe campeã foi tão individualizada num homem só como aquela Argentina que venceu à Alemanha no estádio Azteca. Maradona tudo pôde naquelas sete partidas. Desde gols em que driblou metade da equipe adversária até a licença para usar o ilícito. Seu gol contra a Inglaterra, marcado com a mão será sempre o ícone de uma polêmica perdoada pelo toque da genialidade no gol seguinte. Como se todos compreendessem que para tal jogador não se pode aplicar às mesmas regras que se aplicam aos meros mortais. Ou seja, de certa maneira, a complacência mundial frente àquele ato de desonestidade foi como aceitar às palavras de Diego de que a única mão que impedira a defesa de Peter Shilton fora a "Mão de Deus".

Em Nápoles ele continuaria sendo o Robin Hood encarnado de jogador. Ao clube do sul, Maradona ainda contribuiria com uma inédita Copa da Uefa e um último
scudetto, antes da Copa do Mundo da Itália. Era a Copa que serviria para confirmar sua coroa, para estabelecer sua dinastia. No entanto, Maradona chegou ao mundial cansado, machucado. E a Argentina chegou quatro anos mais velha com um elenco que era praticamente o mesmo que Dieguito levara nas costas para o título, dilapidado ainda pela ausência de importantes figuras como Valdano. O peso desta vez foi maior, seu físico não ajudou. Ainda assim, alguns jogos desta Copa servem de capítulos à sua biografia, dando cores tanto à sua genialidade futebolística, ilustrada pelo gol que ele concede à Claudio Caniggia, após driblar toda à defesa brasileira, quanto à sua personalidade de rebelde. No jogo semifinal contra a Itália, que seria disputado no mesmo estádio San Paolo que lhe servia de palco quase todos os domingos, Maradona conclamou os napolitanos a renegarem à seleção italiana e abraçarem à Argentina. De forma inteligente, mitigou às rivalidades locais, ao lembrar:"Eles pedem que vocês sejam italianos por um dia, quando dizem que vocês não o são o ano inteiro. Eu sou napolitano todos os dias. Torçam, então, por mim!" Apesar da maioria dos torcedores não terem acompanhado sua provocativa conclamação, era possível escutar vaias ao hino italiano e, em silêncio, muitos se regozijaram com a vitória alviceleste nos pênaltis.
O ápice, entretanto, ficou sendo esta vitória. Derrotada na final pela Alemanha, a Argentina chorou lágrimas com a mágoa de seu capitão. Maradona enxergou um complô para lhe prejudicar, para impedir seu segundo mundial consecutivo. Sua coroação no solo em que já era coroado. Disparou contra o
establishment do esporte. Apesar da razão nas críticas aos cartolas (sempre merecedores de quaisquer críticas) e do árbitro da partida, era inegável que a seleção alemã tinha sido a melhor daquele mundial, assim como era inegável a má qualidade da seleção argentina, que só pôde chegar a tal avançada fase devido à fraqueza geral de um piores mundiais que já ocorreram.
Esse capítulo se fechou para Maradona e se iniciou uma sequência de páginas negras de sua vida. Flagrado num exame anti-doping que acusou positivo para cocaína, foi excluído pela Federação Italiana. Depois se arrastou uma tratativa com o Napoli para o rompimento do contrato e problemas com a legislação local. Enfim, quando pôde voltar aos gramados, Diego estava completamente comprometido pelas drogas. Tentou sem sucesso jogar no Sevilla da Espanha, mas brevemente caiu em uma sequência de eventos declinantes. Ainda teve folêgo para tentar uma recuperação que o permitisse voltar a jogar a Copa seguinte. Retornou à Argentina no papel que tão bem se acostumara, o de Messias. De fato funcionou como tal a ser a inspiração para um time jovem recuperar a confiança perdida depois de alcançar o mundial via a repescagem. Um outro positivo em dopagem freiou seu sonho. Maradona foi excluído do Mundial americano antes do último jogo da primeira fase. Daí em diante, a Argentina que já estava classificada para as oitavas só conheceu derrotas. A primeira, contra os búlgaros, só lhe tirou a primeira posição do grupo, mas o segundo golpe, dado pelos romenos, foi fatal. Desclassificação da Copa. Maradona entra em declínio pessoal definitivo.

A morte parecia se anunciar como certa para muito breve. Problemas com drogas, álcool, peso. Maradona nem de longe parece o gênio que inspirou uma geração, que tornou-se deus vivo em seu país. A decadência se estampa no rosto. Mas como um melodrama latino, Diego conseguiu driblar a morte. Depois de vários enfartes, decide-se por um tratamento de desintoxicação em Cuba e em seguida uma cirurgia para diminuição de estômago. Sua recuperação é notória. Sua presença está novamente na mídia. Maradona vive. Jogos festivos, apresentador de programa de televisão. Finalmente o convite para treinar sua seleção.

É absolutamente chocante o amor que Maradona desperta nos argentinos. Pude comprovar isso em Buenos Aires, quando se pode encontrar referências a ele por toda parte, mesmo em coisas descorrelatas do futebol, como o menu de um restaurante. Diego Maradona é, para seus compatriotas, uma espécie de Evita Péron de chuteiras. Primeiro extra-classe mundial que conheceu o poder da mídia moderna, Maradona ganhou projeção tanto por sua capacidade de encantar como pela de gerar notícias, nem sempre boas. Consumido pela imagem. Um homem que pagou o tributo de ser apenas um mortal que era obrigado desde criança a vestir a fantasia de divindade. A driblar a certeza da marginalidade, os adversários no campo e suas limitações como ser humano fora dele. Minha opinião sobre o status de Maradona pode ser controversa, mas ela não suprime nada do que ele fez. Eu não tenho claro se ele é o maior jogador argentino de todos os tempos, como a todos parece óbvio. Acho que Di Stéfano mereceria a oportunidade da dúvida. Como para mim é claro que não é possível compará-lo com Pelé. Com seus mais de 1200 gols, com seus três títulos mundiais pela seleção, dois por seu clube e mais uma infinidade de outros. Com sua capacidade de manter-se no topo por mais de uma década. Não, não o comparo. Mas não posso tirar de Diego à imagem tão sedutora que ele criou para ele mesmo através de sua capacidade sobrehumana de jogar futebol, de decidir jogos sozinho, de inspirar todos os companheiros. Como um Rei. Como um Deus dos estádios...