
Acabou o jogo. O Brasil era campeão do mundo vinte e quatro anos depois de ter conquistado a Jules Rimet. Eu havia passado toda a minha infância a espera daquele momento. Cheguei a acreditar, em meio a desilusão do testemunho de três Copas perdidas, que aquele dia nunca chegaria em minha vida. Mas, estranhamente, não me sentia realizado. Éramos campeões do mundo, mas parecia que não. E a estranheza, eu entendi depois que as idéias se assentaram. A vitória não viera como em meus sonhos. Não era o Brasil arrasador que eu pensara que veria levantar a taça da Fifa novamente, mas era um Brasil muito mais trabalhador. Que mais transpirava que inspirava. Em nada tinha de comum com o genial time que me batizou como amante do futebol na Copa de 1982. É verdade que contava em suas fileiras com um gênio que, seguramente, teria lugar naquele esquadrão, Romário. Mas no mais, era um time que não deixaria marcas indeléveis na história, como os onze de 70 ou mesmo os derrotados da Espanha. Não, em meu espírito aquela era uma copa ganha sem a fantasia que eu esperava e o resultado em minhas impressões era equivalente a não termos ganho.
Passado um certo tempo, imaginei que aquela vitória tinha sido um tour de force necessário para nos livrarmos do complexo de derrotados que já nos impregnava e o que viria a seguir seria mais agradável. Fomos a uma outra final quatro anos mais tarde e ganhamos outra copa oito anos depois, mas nenhum momento desses me satisfez plenamente. A Seleção Brasileira, maior marca da fantasia que o futebol mundial conhece, havia ficado perdida em algum lugar nos meados dos anos 80, juntamente com meus ídolos, Sócrates, Zico, Leandro, Júnior, Cerezo e Falcão.
No interlúdio desse tempo, a seleção foi perdendo gradativamente o charme que tinha, a mobilização que despertava. Muita gente passou mesmo a esperar um fracasso do time. A razão disso é a empáfia que domina a marca Seleção Brasileira. Marca que foi maculada pela administração suspeita que a tirou de patrimônio do povo para transformá-la numa simples grife sem qualquer ligação com sua cultura e com sua gente. Nos dias de hoje é mais fácil encontrar camisas amarelas jogando em Wembley que no Maracanã e com isso o laço que era tão nítido naqueles sofridos anos sem vitórias se tornou apenas uma lembrança passada de pai a filho como uma legenda, mas sem substância. Se multiplicaram amistosos inúteis e a Seleção foi vulgarizada. Vulgarizada a ponto de ser dirigida por qualquer pessoa e representada por qualquer jogador. Num único intuito de vender mais jogos a organizadores, patrocinadores e televisão.
Esse processo de mercantilização afastou também a personalidade da seleção de sua natural característica. Até mesmo a fantasia ganhou um nome com copyright regitrado: "Joga Bonito". E esse ato passou a ser apenas uma lembrança ilustrada por melhores momentos de jogadores que não jogam mais hoje. A mim não satisfaz a maneira de jogar da seleção que não representa aquilo que aprendi ser o núcleo do futebol brasileiro, o jogo do espetáculo, feito para divertir, além de ganhar. A mediocridade dos dias de hoje ganha o nome de eficiência e esconde em números e resultados a incapacidade que tem uma equipe que é formada por alguns dos melhores jogadores do planeta, de dar espetáculos. E essa questão tem as mesmas respostas medíocres de sempre. De que o futebol mudou, de que se deve escolher entre vencer jogando pragmaticamente ou perder dando espetáculo. Respostas que não explicam o porque de equipes como Barcelona e a Seleção Espanhola conseguirem ambas as coisas, vencer jogando o belo.
Tristemente o último bastião de voz que lutava pela beleza em nosso jogo não está mais entre nós. Telê Santana, ele que foi o artíficie do time espetáculo de 82 que desconheceu a vitória, mas que também foi o criador do time são-paulino do início dos anos 90 que nos ensinou que podíamos de novo sermos campeões do mundo, numa época em que duvidávamos disso. Mas, que sobretudo, podíamos vencer jogando nosso futebol.
Esses dias estive revendo a partida Brasil x França pela copa de 86 e é emocionante ver como uma equipe que mesmo sendo cansada pela idade de 4 anos ainda conservava lampejos do brilhantismo de nosso mais puro futebol, pois tinha jogadores que não se satisfaziam em correr, mas sobretudo pensavam.