
Quando era criança, tínhamos um time na vizinhança que chamávamos de "Laranja Mecânica". Era uma equipe formada por um conjunto de amigos, uma equipe que gostava de jogar junta e que gostava de jogar bem. Em nossa brincadeira, não era apenas a questão de ganhar, mas sobretudo de como ganhar. Apelidamos o time assim, pois todos gostavam de alternar as posições em que jogavam. Claro, era apenas um time de garotos que fantasiava jogar um jogo de adultos e que por isso ousava se comparar a um dos times lendários do futebol.
Não sei o quanto o transcorrer dos anos não romantizaram aquela época e suas memórias para mim, mas o que tenho bem vivo era a sensação despertada em mim quando executávamos bem nossas jogadas. Era um sentimento de liberdade que me preenchia, como uma brisa fresca num dia quente. Era uma sensação de realização, daquelas que fazem a vida ter senso e parecer por demais bela.
Assim cresci, buscando recuperar essa sensação, tendo esse parâmetro para definir o que me fazia sentir realizado. Não foram muitas as vezes que voltei a sentir isso, mas sempre que o fiz, foram aquelas peladas que voltaram à minha mente. Aquele solo, aqueles cheiros, aquelas lembranças.
O futebol se impregnou em mim como uma maneira de recuperar essa liberdade, mesmo que fosse através de outrem. O que já havia sido com a visão da seleção de 82 e que foi depois em alguns times que vi jogar. No entanto, o mundo mudou. A preocupação pela busca do resultado sepultou esse sentimento, expurgou a preocupação pela busca da arte pela arte. É necessário se justificar o que se faz com a posição numérica que se assegura.
Claro, o futebol é um esporte movido à competições. Mas o resultado pelo resultado não deveria ser sua única razão de existir. O futebol também é um entretenimento e como tal, deve a seu público o espetáculo. Mas, à medida que o tempo transcorreu, o mundo foi esquecendo disso. Se uma equipe joga bonito, só passa a ser valorizada se vencer todos os campeonatos, não importa que na maioria das vezes saia vencedora e orgulhando seus torcedores.
À medida que o tempo passou, a razão para buscar esse perfeccionismo foi perdendo a lógica de existir e passamos a cruel objetividade da 'mínima ação', segundo a qual se o que importa é vencer, então só se precisa alcançar um resultado, da maneira mais maquiavélica que se puder. Esquecemos porque buscamos a beleza no mundo, que é a inspiração que nos faz transceder por momentos tênues nossa condição de seres incompletos e falhos, numa existência tão incerta como a nossa.
Mas, acho que sou por demais romântico, pois ainda prefiro me arriscar buscando aquela sensação que as jogadas que meu time, a "Laranja Mecânica", me trazia, do que ver a ditadura da vida real dos dias atuais, que para mim não tem sabor, nem sentido.