Exatamente hoje, 17 de junho, completam-se 50 anos que o futebol da seleção brasileira consagrou definitivamente uma geração de jogadores para a história do futebol mundial. Vencedores quatro anos antes, a maioria dos que estiveram na Suécia, também levantaram a taça no Chile.
Como todo épico, esta conquista contém seus elementos particulares que moldam a maneira como ela será contada e esconde os pequenos problemas que serão esquecidos. De um lado, temos a contusão de Pelé, que privou o time daquele que já era àquela altura uma das maiores figuras do futebol mundial, mas deu a chance a um jovem Amarildo de escrever seu nome no romance das Copas. O Possesso será, para sempre, o mais bem-sucedido reserva, o exemplo dado a todos os que tiverem de substituir o maior craque do time numa competição importante ou não tão importante assim. Também temos a "Copa de um homem só": Garrincha. A consagração do gênio-ingênuo, que alcançou sua maturidade ao se ver sem Pelé e que tomou para si a responsabilidade de assumir a liderança técnica da equipe. E o fez, sendo a completa diferença entre o Brasil e seus adversários. Mas também foi a Copa que serviu para eternizar outros nomes icônicos de nossa história futebolística, como Gilmar, Djalma Santos, Mauro Ramos de Oliveira, Nilton Santos, Zito, Didi, Vavá e Zagalo.
O outro lado deste conto, que é menos comentado, são as relações políticas e nefastas que beneficiaram a seleção em alguns momentos de sua caminhada, como na vitória sobre a Espanha, com pênaltis não marcados e gols erradamente anulados ou no sumiço da súmula e do juiz que expulsara Garrincha na semifinal contra o Chile, permitindo que Mané jogasse a final. Partes que apenas humanizam a glória destes maravilhosos jogadores, que certamente ganhariam por si mesmos, como já o haviam feito na Suécia.
Uma geração que ficou marcada nos registros de nosso futebol como a Geração de Ouro. Designativos que fazem imaginar aqueles onze jogando de "terno e gravata", tal era sua classe no domínio do jogo. Uma época que nosso time contava com pelo menos quatro dos gênios que não podem faltar a nenhuma lista dos maiores da história deste esporte: Pelé, Garrincha, Didi e Nilton Santos. Um apanhado de jogadores que desfilavam o que o mundo passou a chamar de "futebol brasileiro". Um estilo que se caracterizava pelo que ninguém mais podia fazer ao mesmo tempo: velocidade, inventividade, classe, domínio e inteligência. Uma inteligência visceral, mas ao mesmo tempo objetiva como no jogo de Garrincha. Uma geração que nos acostumou muito mal.
Quando vejo os jogadores brasileiros de hoje sendo chamado de craques por partidas que fazem contra adversários sem nível, durante alguns poucos jogos, imagino como deveríamos chamar a estes jogadores. Deuses? Parece pouco. Quando vejo o atual futebol brasileiro, também me pergunto onde foi parar o tal "futebol brasileiro", hoje tão vulgar, tão abaixo das expectativas que os senhores de 62 e alguns que vieram antes e depois, semearam em nosso imaginário. Acho que todos os "craques" brasileiros (craques laureados pelo marketing e não pela bola), deveriam assistir a estes senhores jogando, entender o que fazia-os diferentes e tentar, ao menos, carregar, em seus corações, a razão de se jogar bola do jeito que eles jogavam. Pela beleza, pelo amor. Então, talvez, eles pudessem se tornar bons jogadores...